Feminismos e a questão da Palestina: uma reflexão sobre as lutas interseccionais com Angela Davis

“A liberdade é uma luta constante”. Angela Davis não deixará que nos esqueçamos disso. Ao longo de seus 74 anos, a intelectual, ícone da luta pelos direitos civis, vem inflamando multidões por onde passa, promovendo reflexões importantes sobre vários aspectos de nosso mundo, infelizmente tão habituado às opressões. Se em 1970, injustamente presa por sua proximidade ao grupo Panteras Negras, ela observou a campanha “Libertem Angela Davis” ganhar proporções mundiais, hoje é ela uma das maiores responsáveis por bradar a liberdade de personalidades e povos do mundo.

Recentemente publicado pela Boitempo, “A liberdade é uma luta constante é uma belíssima compilação de entrevistas e discursos realizados por Davis em diferentes países entre 2013 e 2015. O lançamento dá continuidade à publicação de seu trabalho no Brasil, por tanto tempo ignorado pelas editoras e tradutores do país. Das 131 páginas dessa obra pulsa a energia de uma vida toda dedicada à constante luta pela liberdade. É inspiração necessária para o momento atual.

A cada dia, observamos com surpresa ondas conservadoras e de extrema-direita assombrarem diversas democracias ao redor do mundo. Se o resultado das eleições no Brasil impactou a muitos, talvez estes – incluindo quem aqui escreve – não estivessem olhando suficientemente bem para outras nações e seus cenários políticos. Sabemos todos que movimentos históricos assim não acontecem isoladamente. Sabíamos todos, mas ignoramos.

É nesse contexto que a obra de Davis se faz tão urgente e necessária: é preciso estar atento às histórias paralelas que se propagam. “É preciso interferir. É preciso fazer intervenções conscientes”, Davis diz a Frank Barat na cidade de Bruxelas em setembro de 2014. Nessa entrevista, assim como em todas as suas falas transcritas em “A liberdade é uma luta constante”, Davis amplia uma das lógicas do feminismo: assim como nenhuma mulher será verdadeiramente livre enquanto restar uma única oprimida, também nenhuma nação será verdadeiramente livre enquanto guerras civis, ditaduras, autoritarismos e qualquer tipo de opressão existirem em um único país sequer.

Norte-americana constantemente em contato com o conflito na Palestina – e interessada pela atuação de seu país na região, Angela Davis não deixa de trazer à tona o tema em suas reflexões. Além das questões que envolvem o Oriente Médio, a liberdade de povos historicamente oprimidos, a pena de morte, o sistema industrial-prisional e o encarceramento em massa nos Estados Unidos – e no mundo – são temas presentes na obra.

Ao final dela, por sinal, Angela Davis habilmente deixa o leitor à mercê de suas próprias reflexões sobre o caminho a ser percorrido com o peso de sua responsabilidade individual ainda mais nítido. Diante do contato com tantas questões ignoradas até ali, trazidas à luz a cada discurso ou entrevista, ao leitor cabe a certeza de que seu olhar diante do mundo seguirá em expansão.

“Acho que seria importante prosseguir no desenvolvimento dessa análise, mas vou concluir dizendo que o maior desafio que temos diante de nós ao tentarmos criar solidariedade intersecional e conexões que atravessem as fronteiras nacionais é a compreensão daquilo que as feministas chamam, em geral, de ‘interseccionalidade’. Não tanto a interseccionalidade das identidades, mas a interseccionalidade das lutas”, ela diz enquanto chega ao final do discurso feito em Istambul em 2015.

Por fim conclui, sendo esta também a conclusão de seu livro: “Não queremos ser capazes de imaginar a expansão da liberdade e da justiça no mundo, como Hrant Dink nos incitou a fazer? Na Turquia, na Palestina, na África do Sul, na Alemanha, na Colômbia, no Brasil, nas Filipinas, nos Estados Unidos? Se for esse o caso, teremos de fazer algo totalmente extraordinário, precisaremos ir às últimas consequências. Não podemos continuar a fazer o mesmo. Não há como se resolver em torno do centro. Não podemos agir com moderação. Teremos de ter disposição para nos erguer e dizer ‘não’ unindo nossas almas, articulando nossas mentes coletivas e nossos corpos, que são muitos”.



Para assistir – na Netflix – após a leitura:

  • A 13ª Emenda
  • A 13ª Emenda: Oprah Winfrey entrevista Ava DuVernay
  • Os Panteras Negras: Vanguarda da revolução

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