Prostituição: por que alguns feminismos seguem excluindo determinadas mulheres do movimento?

“Sim, queremos tudo, todos os direitos, e para ontem”, reivindica Amara Moira, logo no prefácio de “Putafeminismo”. Em números, o trabalho sexual no mundo ainda é incerto: estima-se que aproximadamente 42 milhões de pessoas exerçam a função, embora a estatística não distingua os profissionais das vítimas de exploração sexual, como pontua Monique Prada em seu livro recém-publicado pela editora Veneta. Ao crime de exploração sexual, a luta por sua erradicação e pela justiça às vítimas. Já aos profissionais do sexo, principalmente mulheres, que em milhares clamam por direitos, respeito e visibilidade, forte apoio.

O lugar de fala de Monique Prada, que se dedicou a escrever sobre sua vida e lutas, apresenta o putafeminismo, movimento formado pelas profissionais do sexo que lutam por seus direitos como mulheres feministas e também como profissionais às quais são negados direitos primários. Centro e três páginas depois de uma narrativa sincera e engajada, felizmente passo a enxergar a prostituição com novas lentes, agora mais condizentes com a realidade da profissão.

Antes de conhecer Monique Prada, não era bem assim. Partindo de minha própria realidade e leituras, vinha nutrindo uma opinião com mínimo embasamento de que a luta pela equidade de gênero e por um mundo melhor provocaria o fim da prostituição. O fim da prostituição, bem sabemos, é uma utopia.

Se deixarmos de lado todos os julgamentos sobre a monetização da sexualidade e os valores individuais de cada profissional, talvez sobre tempo e energia para outras questões: é a prostituição que contribui para a perpetuação do machismo no mundo ou é o machismo que desvirtua os trabalhos sexuais? Devem algumas feministas desejar o fim de uma profissão – a dita mais antiga do mundo – culpando as mulheres trabalhadoras sexuais de um problema enraizado em nossa sociedade? E falar sobre isso, excluindo tal grupo de profissionais, não é uma intolerância, e, sendo assim, um desserviço para o mundo que queremos construir?

“Não dá pra ser contra a prostituição sem ser contra as prostitutas”, alerta Prada. E ela, claramente, tem toda a razão. Precisamos ouvir as mulheres que, organizadas, lutam por seus direitos, pelo fim da marginalização das prostitutas e por respeito há anos. Repito: há anos. Pois assim como o movimento feminista existe há muito tempo, também as organizações das trabalhadoras sexuais, que, sendo mulheres, também podem – e devem – ser feministas. A grande diferença é que alguns feminismos, os mais radicais – que ouso chamar intolerantes – , insistem em pensar em uma mulher universal, como se todas nós – negras, brancas, indígenas, empreendedoras, putas, domésticas, mães – fôssemos iguais e tivéssemos as mesmas demandas. O movimento das trabalhadoras sexuais, além de pensar nos feminismos e suas temáticas, pensa também nas mulheres que o compõem, e no que querem. Putas feministas. Daí o nome.

Eis o panorama: enquanto boa parte das mulheres engajadas em feminismos variados segue excluindo as prostitutas dos movimentos e de suas pautas – seja pela ignorância de considerar que o problema da desigualdade de gênero é potencializado pelas mulheres que usam sua sexualidade para sobreviver ou apenas por pura desatenção -, o descaso abre espaço para perigosas ameaças às suas vidas. Atualmente no congresso aguarda aprovação a indicação 2371-16, do deputado Flavinho, do PSB de São Paulo, que demanda a retirada da ocupação de profissionais do sexo da Classificação Brasileira de Ocupações (CBO); e também o projeto de lei 377-11, que tipifica o crime de contratação de serviço sexual. Ou seja, se hoje no país excluídas são só as putas, não quem as contrata, pode ser que, em breve, sigam todos na mesma viatura. Ampliar a marginalização dessa categoria, afinal, resolve o quê?

“(…) banir o trabalho sexual da face da Terra é uma péssima ideia: seguiríamos expostas às mesmas necessidades e nossa única ou melhor alternativa laboral estaria extinta. Nossa luta, nesse sentido, deve continuar sendo para acabar com a pobreza no mundo. A pobreza é degradante, violenta, humilhante e empurra as mulheres para os trabalhos precários, dos quais o trabalho sexual é apenas um. No entanto, num mundo que não tem tido sucesso em acabar com a pobreza, não é sensato condenar à clandestinidade as mulheres que precisam recorrer ao trabalho sexual para sobreviver”, defende a autora.

Antes de Monique Prada, tinha em minha cabeça uma vazia consideração sobre o assunto. Sigo acreditando em um mundo possível sem a prostituição, mas sem a prostituição da forma que conhecemos hoje. Às profissionais do sexo, todos os direitos, sim, e todas as possibilidades, para que todas possam prosperar e se desenvolver, estabelecendo-se na profissão apenas as que verdadeiramente querem, e não aquelas que fogem da pobreza e dos salários baixíssimos que os subempregos oferecem. Aos leitores de “Putafeminismo”, que possamos potencializar as vozes dessas mulheres que pedem os direitos que lhes cabem como trabalhadoras. 

O problema da prostituição é o homem machista que nutre relações abusivas, os meninos incentivados pelos pais a uma sexualidade emocionalmente irresponsável, e também as práticas impostas por uma sociedade que busca a todo momento a comprovação de uma masculinidade doentia. O problema da prostituição não são as putas. O trabalho sexual, quando o patriarcado enfim sucumbir, terá outras conotações – e espero que a gente assista a essa transição.

Num mundo em que a desigualdade e as intolerâncias encontram solo fértil, precisamos ficar unidas e lutar pelas demandas de outras mulheres, de todas as outras. Finalizo minha resenha como finaliza Monique Prada sua obra: “Considere parar para ouvir o que uma trabalhadora sexual diz como se estivesse ouvindo qualquer outra pessoa. Ninguém perde com isso. Ao contrário: ganhamos todas”.

Um comentário sobre “Prostituição: por que alguns feminismos seguem excluindo determinadas mulheres do movimento?

  1. Michelle Cruz disse:

    Acredito que é necessário diálogo, precisamos ouvir mais do que criticar. Não consigo condenar NENHUMA prostituta. Porém, não consigo motivar alguém a seguir esse caminho. Especialmente quando penso no histórico da prostituição no Brasil, quando as negras eram tratadas como objetos/ produtos para ganho e prazer de seus senhores. A prostituição mantém muitas mulheres se sustentando e sobrevivendo, as pessoas gostando ou não gostando.

    É por esse e muitos outros motivos que precisamos pensar em melhoria da Educação e oportunidade de emprego para todos. Só quando tivermos uma sociedade mais igualitária, com oportunidades para todos, com direito de escolha, vamos ter condições de mensurar quem são as prostitutas por profissão e as que se envolveram pra sobreviver. Talvez, nesse novo cenário, proteger prostitutas não será mais a temática.

    Realmente, precisamos dialogar!

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