“Vermelho-vida”, um livro para iniciados: uma homenagem de Mariana Paiva para Hilda Hilst

O prefácio de “Vermelho-vida” já anuncia: trata-se de um encontro. É Cristiano Diniz, pesquisador e arquivista do acervo da escritora Hilda Hilst, quem apresenta Mariana Paiva, que morou na Casa do Sol, reduto daquela escritora em Campinas, interior de São Paulo, durante o ano de 2013. Como uma das primeiras a participar do programa de residência artística do local, a jornalista baiana teve sua vida tão arrebatada pela presença de Hilda que, por uma série de bons acasos, acabou se mudando de vez para a cidade.

Durante aquele ano foi assim: morando na casa em que também morava Hilda, pisando onde ela pisava e com as companhias que também eram as dela, Mariana mergulhou em sua vida, e a partir deste encontro tudo o que era dela também tornou-se seu. “Vermelho-vida” convida o leitor a assistir alguns momentos desta longa descoberta: uma escritora em seus trinta e poucos anos unindo-se a uma imortal.

Lançado na Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) deste ano, que homenageou justamente Hilda Hilst, o novo livro de Mariana Paiva é um presente aos amantes da escritora, e apresenta em suas quase 90 páginas toda a espontaneidade característica de sua escrita – e ao notar isso, por um momento, já não sei mais se falo dela ou de Hilda.

“Zé entende tudo que eu digo. O seu também? Pensei em construir a Casa de Qadós, sonhei com ela, e ai alugaria a Casa do Sol. Isso um dia. Zé acho ótimo, apoiou,  boa ideia. Mas aí depois eu pensei melhor e fiz outros planos, que eram de construir a Casa da Lua e vender a Casa do Sol. Não preciso explicar nada para Zé, falamos pouco e nos entendemos muito rápido. É um alívio isso, aliás, porque há estupidez correndo a passos largos por aí e a gente explica tanto que chega cansa. Aí já sou eu falando (qual delas? – você se pergunta – e eu não vou te responder)”.

A jovem, que chegara à Casa do Sol em busca do acolhimento, ainda que espiritual, da escritora, foi descobrindo a cada momento o poder transformador da liberdade que encontrou em seus dias: a ausência do relógio, o silêncio, os pés que confortavelmente tocavam um chão de terra e sua escrita vão transformando Mariana Paiva em nova diante de nossos olhos, que cruzam apressados as páginas do livro. No silêncio da leitura, a beleza de sua voz se multiplica. E quando a última página chega, é inevitável a sensação de ter pertencido àquele encontro, visto em palavras, tanto quanto Mariana pertenceu – e sentiu com toda sua alma e entranhas.

“Muito é demais, Hilda?”, ela pergunta por fim. E como a questão ficou pairando na ausência de resposta, me faço mensageira para dizer que não, Mariana. Quando o “muito” é verdadeiro, nunca é demais. Como suas palavras, sempre tão honestas, nos apresentam um mundo todo só seu e de Hilda, a essas poucas páginas só desejei que fossem muitas, intermináveis, para que eu continuasse tentando desvendar o universo de vocês. Um universo, por sinal, tão vivo quanto a cor que emerge diante de nós a cada palavra. Um universo todo de vermelho-vida.

Deixe seu comentário pra gente!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s