Masculinidade tóxica e relacionamentos acomodados: uma reflexão sobre Nada a dizer, de Elvira Vigna

Elvira Vigna nos apresenta em “Nada a dizer” uma clássica situação já explorada por todas as artes: uma mulher traída que tenta compreender e transpassar pela traição. E com isso, Vigna nos confirma que o tema, entretanto, ainda não foi explorado à exaustão. Mesmo que saibamos desde a sinopse do trata sua obra – e mesmo que nada além disso aconteça – , a voz de uma das maiores escritoras contemporâneas brasileiras nos ajuda a perceber novas nuances. O clichê da mulher traída ganha novas chaves de leitura.

“Eu, saída de mim, virei a mulher traída de todas as histórias existentes e ainda por existir”, compreende a narradora, que escreve mais como uma autoanálise que para possíveis leitores. Sem nomear-se, relata com os mínimos detalhes – fiéis ou imaginados – o caso de seu marido, Paulo, com N., uma conhecida amiga dos círculos sociais do casal. Após 30 anos de um casamento que se propunha a fugir dos padrões burgueses pré-estabelecidos, que parecia valorizar a transparência e a liberdade dos dois, essa mulher traída custa a aceitar que seu marido tenha tido um caso. Tão brega isso de ter um caso.

Inúmeras vezes declara que facilmente compreenderia que Paulo a tivesse traído em uma noite de bebedeira ou algo assim, se tivesse sido caso de apenas uma noite. Mas não foi, e sua busca pelo entendimento alonga-se por 161 páginas, quando declara-se, enfim, “bem”. E entre aspas, ressalto, pois nada efetivamente volta ao normal após uma traição premeditada. Sabemos disso, eu e você que me lê. E Elvira Vigna nos presenteia com uma história que divide-se em várias: a traição de Paulo, as intenções de N., a busca da narradora por si mesma, pelo casamento, por respostas…

“Como alguém pode achar que uma experiência forte, como a de um relacionamento sexual-amoroso, não modifica seus participantes diretos e não afasta deles os que dele são excluídos. O meu relacionamento com Paulo sempre foi exclusivo. Mesmo com os tropeços que, sim, houve se propunha e ser monogâmico. Mas ainda que não fosse. Como achar que, se eu trepo com fulano, o beltrano, com quem eu também trepo, não terá sua presença modificada na minha vida pelo simples fato de eu ter vivido uma experiência forte que o exclui. Como alguém pode achar que esconder uma coisa importante de alguém que lhe é importante não fará com que essa pessoa importante fique menos importante”.

Em “Nada a dizer”, Vigna criou uma personagem característica, quase caricata, e, ao mesmo tempo, muito peculiar. Aos poucos, assistimos todo seu esforço mental, quase obsessivo, de reconstruir os passos do marido e sua amante, e de lidar com elas. A narrativa, de uma fluidez incrível, à medida que nos amarra, também nos envolve com reflexões marcadas de gênero. Inevitável. Temos nas mãos a história uma mulher traída e um homem que, na casa dos sessenta anos, assim como sua esposa, sente-se atraído por uma mulher 20 anos mais jovem, atraído mais pela adrenalina de fazer algo proibido que pela necessidade de um novo amor. E por que essa história nos soa tão comum?

É extremamente familiar que um homem mais velho tenha um caso extraconjugal, e que nenhum amigo diga a ele que enganar sua parceira de tantos anos, com quem ele se propõe a construir um relacionamento saudável, é errado. “Foi bom?”, pergunta o amigo de Paulo. E sabemos que tudo isso – a traição e como os homens lidam com ela em seus círculos sociais – é fruto de uma masculinidade tóxica. Graças à ela, muitos relacionamentos amorosos são construídos sem a transparência necessária, que acolheria igual e verdadeiramente todas as necessidades e vontades dos envolvidos. E essa é apenas uma das chaves de leitura deste livro, pois “Nada a dizer” nos traz vários incômodos, tão típicos nas obras de Vigna.

Mais do que a traição, acompanhamos uma narradora, tão perdida de si, sem nome, que demonstra a preocupação de uma geração de mulheres que, com a chegada da meia idade, preocupam-se com a aparência envelhecida e buscam peles e roupas mais jovens. Por que o envelhecimento dos homens é associado à necessidade de conquista, uma demonstração de masculinidade, enquanto o das mulheres não? Passados 20, 30, 40 anos de um casamento, um corpo mais jovem pode mesmo ser motivo para abalar um relacionamento? Será que é o corpo que envelhece da maneira errada ou os relacionamentos? E se forem eles, não seriam os envolvidos que, na verdade, não tinham nada a ver?

A narradora, exausta, entende: “Vi que os amores vagabundos também me incluíam. Que eram também o amor descuidado, empurrado, o amor do amanhã se resolve. Um tipo de amor que às vezes dura trinta anos ou mais”. “Nada a dizer”, talvez como o próprio nome denuncia, não apresenta solução nenhuma. Nossa narradora sem nome, explora sua autoanálise em busca de maneira de voltar a construir um relacionamento em que acredita, apesar dos danos gerados pelo “evento N.”, como se refere ao caso de Paulo.

A nós, leitores, cabem as reflexões deixadas, que muito tem a ver com nossas próprias experiências. Que essa obra nos permita repensar a masculinidade que temos criado e acolhido, e que também pensemos sobre os relacionamentos amorosos que construímos. E que, com isso, os amores-do-amanhã-se-resolve se tornem os amores-do-sinceramente-agora. Como leitores saudosos de Elvira Vigna, não nos resta dúvida alguma de qual seja melhor.

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