Uma não-tão-breve nota sobre a importância de deixar a vida apenas seguir seu curso

Capricorniana com ascendente em gêmeos e lua em virgem. Esta sou eu, tendo um pouquinho de ar na minha constituição que irradia tanta terra. Aos descrentes da influência dos astros em nossas tão únicas personalidades, um aviso: há muito mais coisas que seu horóscopo revela de você do que você gostaria que fizesse. Mas assim seguimos, e cada pessoa nutre em si suas próprias crenças, seus medos e aflições.

Gosto de pensar nisso: na doida composição do meu humilde mapa astral. Humilde, digo eu, porque sei apenas o que me basta para domar meus instintos terrísticos (e que me perdoem os profundos conhecedores do tema). Minha boa organização, irredutível empenho e fiéis crenças são demasiadamente enraizados, comprovados por meus elementos em terra, e qualquer sinal de descontrole ou incerteza, muito do ar, torna-se um fardo pesado demais para carregar. Aqui, um certo drama, porque, no fim das contas, sempre carrego o que der e vier.

E carrego, porque, sendo assim como sou, faço do conhecimento de mim mesma algo precioso, que permite que eu reconheça o que me faz mal ou aprisiona e tente domar tudo e deixar a vida ir. E é sobre esse deixar ir que escrevo. É engraçado pensar na frequência com que ouço tal conselho. Principalmente se eu contabilizar a falta de exemplos reais, de exercícios que funcionam esse tal de deixar ir. Como faço essa entrega? E a quem?

É possível que você se identifique com alguma particularidade deste meu relato, dessa falta identificada nos conselhos que nos dão, e por isso apresento um exemplo banal: sendo tão de terra, é esperado que eu tenha medo de voar. E tenho. A cada viagem programada, não raro sinto que minha aflição de esperar a sensação de vazio no estômago e tonteira momentânea minimiza minha animação com o destino final. Mas não deixo de ir, nunca. Ainda que cada minuto percorrido entre o barulho das turbinas demande o dobro em contenção de crise, pensamentos positivos e respirações profundas. É deixar que o avião siga seu rumo. Deixar ir…

Dou outro exemplo, para nutrir qualquer análise psicoterapêutica em curso neste momento: eu amo nadar, mas o breve instante entre o fechar dos olhos imersa em muitos mil litros d’água, me faz ter a mesma sensação de estar a 11 mil metros de altura, ainda que os meus pés em solo firme estejam a um impulso de distância. Acho que imensidão talvez me assuste. Ou talvez seja isso: minha necessidade de organização e controle da vida não faz o menor sentido diante de sensações tão grandes assim. É aceitar ser apenas levada, por água ou ar, e ser um dos elementos que compõem o cenário todo — logo eu, que penso conseguir dar conta de todos os cenários do mundo.

Pensando sobre tudo isso, dos elementos do zodíaco aos meus medos e tentativas de domá-los, é que entendo essa coisa de deixar ir. Essa entrega tem muito mais a ver com um autoconhecimento racional do que com os rápidos — e prontos — conselhos que nos dão. E é claro que, conscientemente, se colocarmos todas as estatísticas e elementos que pensamos nos compor em planilhas e formulários, não fará nenhum sentido para quem vê de fora. Mas talvez faça para nós. E, mesmo que a gente não consiga tranquilamente confiar no curso das coisas, passamos a confiar. E esse se torna um exercício diário.

Eu, Michelle, não consigo confiar de olhos fechados em um ser humano que nunca vi ou verei de novo na vida, mas se ele é o responsável por me levar ao destino que tenho sonhado, é isso que eu preciso fazer. Por algumas horas. Um treinamento. E talvez eu não posso confiar em mim mesma diante da imensidão de águas profundas, mas posso tentar me entregar àquele instante e àquela sensação de saber que está tudo bem, e que eu não estou fazendo nada demais para que esteja assim, apenas existindo.

Todos os minutos que dedico a confiar no curso natural das coisas, treinando para não deixar que minhas aflições puxem a caravana da vida, valem a pena quando toda a minha capricornianice consegue apenas observar a paisagem. No fim das contas, o deixar ir também traz um sossego — e a gente precisa.

E nada disso tem a ver com deixar de ter medo, porque eu sei que um conselho desse não funciona jamais. Não é deixar de ter medo, é só abraçar esse medo e ir com ele para aonde quer que você queira ir. É abraçar sua ansiedade e respirar, porque vai ficar tudo bem. É praticar o autoconhecimento diário para saber como você pode deixar ir e fazer da sua travessia uma caminhada mais calma, assim como eu descobri que esse pouquinho de ar que me compõe me impulsiona todos os dias a respirar tranquila, com a certeza de que as coisas estão em suas rotas certas e de que tudo vai ficar bem.

[Uma nota mental para mim mesma, que voltei à natação hoje e estarei nos ares dentro de poucas semanas: aproveita, porque é nesses breves instantes em que seu coração salta entre uma lufada de ar e outra, entre uma respiração fora da água e um novo mergulho, que a gente experimenta a simples oferta do que realmente somos nas mãos da vida.]

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