“Canção de ninar”: vencedora do prêmio Goncourt, Leïla Slimani inspira debate sobre maternidade

“Canção de ninar” é o segundo livro escrito pela franco-marroquina Leïla Slimani, uma das atrações da Flip deste ano. Graças a ele, a autora se tornou, aos 35 anos, a 12ª mulher a ganhar o Prêmio Goncourt, o reconhecimento literário mais tradicional da França que existe há 112 anos. Baseado em fatos reais, “Canção de ninar” conta uma história trágica que inflama o debate sobre o papel da mulher na sociedade e, principalmente, sobre as questões da maternidade. Tudo o que você vai ler a seguir não é spoiler, mas já saiba que essa não é uma história fácil.

Eis o que sabemos desde o início do livro: Adam, o mais novo, está morto; Mila, a primogênita, não vai sobreviver; Louise, uma babá exemplar até aquele momento, não conseguiu criar para si o mesmo destino que deu para as crianças e é levada com vida pelo resgate. Até que estes profissionais tivesse chegado ao local, a única testemunha da horripilante cena do crime era Myriam, a mãe. Estampado na contracapa do livro, este é o acontecimento mais terrível da narrativa, cuja descrição em detalhes aguarda o leitor logo nas primeiras páginas.

Leïla Slimani tem um estilo pragmático e, sem muitos rodeios, constrói uma história impecável, crua e impactante. No início, dedica cada palavra a reconstrução do cenário tenebroso do fim desta família. Depois, dedica-se nas próximas 190 páginas a apresentar o que veio antes daquele momento: a maternidade de Myriam em conflito com sua busca pela realização profissional; a dificuldade de Paul em assumir responsabilidades paternas; a terceirização da criação de seus filhos a Louise, um ser humano tão complexo quanto eles; e a invisibilidade desta profissional que se torna a segunda mãe de Adam e Mila.

“Canção de ninar” não é uma acusação da culpa de uma mãe ausente, nem uma inocentação de uma babá psicologicamente incapaz de cuidar de outras vidas além da sua. Uma vez que Louise – viúva, solitária e endividada – sabe que sua vida já desmoronou, apenas continua preocupada em tornar perfeita a vida dessa família burguesa – e ninguém se demonstrou solidário a ela, nem quando possuiu a chance.

Quem canta uma canção de ninar aos filhos dos pais ausentes, que delegam a criação de sua prole para se sentirem profissionalmente realizados? É justo que eles se ausentem em nome de uma falsa concepção de sucesso? E não seria igualmente injusto aprisionar adultos que seriam plenamente felizes sem filhos, dedicando-se apenas às suas carreiras, em um ideal de família padronizada? Quem criou a concepção de que uma família só é completa com filhos? Toda mulher deseja e deve ter filhos? E se for verdade que a realização familiar só se realiza com eles, a babá que cria esses filhos que não são seus também faz parte da família?

A cada capítulo de “Canção de ninar”, essas reflexões chegam como ondas imensas que nos afogam em tensão, angústia e culpa. Culpa, porque sabemos que grandes ambições profissionais não coincidem com as figuras de pais e mães presentes na vida de seus filhos, mas só voltamos nossa atenção ao assunto quando falamos da ambição de uma mulher e de sua figura ausente. É facil enxergar um pai ambicioso e provedor quando este é ausente, mas quando falta a figura materna, falamos de uma mulher relapsa; e quando uma mulher dedica-se apenas ao trabalho doméstico, bem, daí vemos uma mulher sem ambição alguma e isso também é muito problemático. 

“Canção de ninar” nos permite acompanhar uma família burguesa que se mantém em ascensão graças aos esforços de uma babá elegante e reservada, mas que, apesar de toda a intimidade que cria com a família, continua sendo vista por seus patrões sem um real interesse em conhecê-la ou ajudá-la. O casal desta história, antes de escolher Louise, havia se empenhado em uma busca específica: procuravam uma mulher sem filhos, que não tivesse restrições de horários, que não fosse imigrante, que fosse forte e educada… Nesta imersão familiar criada por Leïla Slimani, percebemos como tais características que o casal buscava, na verdade, não demonstravam absolutamente nada sobre a alma humana, tão complexa. “Canção de ninar” é como um drink que tomamos de um gole só: atraídos pela sequência de capítulos curtos, ardemos pela demonstração fria e dolorosa de que a linha entre a sanidade e a loucura é tão tênue quanto a da vida e da morte. 

“Paul e Myriam são seduzidos por Louise, por seus traços lisos, seu sorriso franco, seus lábios que não tremem. Ela parece imperturbável. Tem o olhar de uma mulher que pode compreender e perdoar tudo. Seu rosto é como um mal calmo, de cujos abismos ninguém poderia suspeitar”.

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