A tenda vermelha: um livro sobre ancestralidade feminina e as mulheres esquecidas da Bíblia

Antes de Anita Diamant dar voz a esta personagem em “A tenda vermelha”, o registro de sua existência estava apenas em um único capítulo da Bíblia, em Gênesis 34. “Dinah, a filha que Lia havia dado a Jacó, saiu para ir ver as filhas da terra. Siquém, o filho de Hemor, o heveu, príncipe da terra, tendo-a visto, tomou-a, dormiu com ela e lhe fez violência. Mas seu coração inclinou-se por Dinah, filha de Jacó, amou a jovem e falou-lhe ao coração”.

O que sabemos por este capítulo, chamado “Violência feita a Dina”, é que uma parte de sua vida é contada apenas para exaltar uma grande vingança feita por seus irmãos, também filhos de Jacó, a este príncipe que teria, então, a violado. Simão e Levi consideraram Dinah ter tido relações com um homem antes da cerimônia de casamento algo imperdoável, uma violência contra os costumes de sua família, e convenceram seu pai a pedir como dote que todos os homens daquele povo fossem circuncidados, assim como eram todos os homens do seu. Assim, com o casamento consumado e o ritual realizado, todos fariam parte de uma mesma família, marcados pelo sinal de um único deus.

Por mais extravagante que pareça esse pedido, foi aceito. Mas ele fazia parte de uma vingança mais bem planejada: dias depois da cirurgia, quando todos os homens estavam impossibilitados de reagir, Simão e Levi entraram no vilarejo e mataram cada um deles, roubando suas riquezas, mulheres e crianças. Esta é a parte da Bíblia que cabe à Dina, filha de Jacó. Enquanto a história deste povo continuou no livro após o episódio, a de Dinah desapareceu.

“Havia muito mais o que contar. Se me tivessem pedido para falar a respeito, eu teria começado com a história da geração que me criou, que é o único ponto de onde se pode realmente começar. Se você quiser compreender qualquer mulher, precisa antes perguntar sobre a mãe dela e depois escutar com atenção o que é dito. Histórias sobre comida revelam uma forte ligação entre elas. Silêncios pensativos indicam questões não resolvidas. Quanto mais detalhes sobre a vida da mãe a filha parece conhecer – sem se perturbar nem se queixar –, mais forte é essa filha”.

E Anita Diamant fala sobre ela, Dinah, em “A tenda vermelha”. Durante três anos, apoiando-se em uma extensa pesquisa histórica, ela escreveu este livro, que foi publicado em 1997, contando a história de Dinah, desde sua infância até os últimos dias de sua vida. Desde então, “A tenda vermelha” vendeu mais de três milhões de exemplares, ganhou este ano uma nova edição no Brasil e já foi adaptada para o audiovisual. (Duas informações relevantes sobre isso: 1 – a série, produzida pela Lifetime, está disponível na Netflix; 2 – embora contenha exatamente a mesma história, o livro é infinitamente mais detalhado que a série, que aderiu a adaptações um tanto quanto duvidosas de alguns personagens).

Obviamente esta é uma história ficcional, e Diamant apresenta uma obra belíssima do que pode ter sido a vida de Dinah. Sua leitura vale a pena, seja pela reconstrução dessa personagem ignorada na Bíblia, como pelo enredo que apresenta, de forma natural e verdadeira, poderosas reflexões por meio do relacionamento entre mãe e filha, da sororidade e da busca pela identidade. A autora ainda promove um resgate das tradições e dos rituais das tendas vermelhas. Que livro, sério!

“A grande mão a quem chamamos Innana concedeu às mulheres uma dádiva que os homens desconhecem, que é o segredo do sangue. O fluxo na escuridão da lua, o sangue benéfico do nascimento da lua, para os homens, é vazamento e incômodo, aborrecimento e dor. Eles acham que sofremos e consideram-se afortunados. Nós os deixamos pensar assim. Na tenda vermelha, sabemos qual é a verdade. Na tenda vermelha, onde os dias passam como as águas de um riacho tranquilo enquanto a dádiva de Innana passa através de nós, limpando o corpo da morte do mês anterior, preparando o corpo para receber a vida do novo mês, na tenda vermelha, as mulheres dão graças: pelo repouso e pela recuperação, por saber que a vida vem de dentro de nós, surge entre as nossas pernas, e que a vida custa sangue”.

Nas tendas vermelhas, as mulheres se reuniam durante os períodos de menstruação, nascimento e morte, e deixavam toda e qualquer individualidade do lado de fora. Naqueles momentos, as mulheres estavam unidas verdadeiramente e a sororidade não era algo a ser buscado, pois já fazia parte da vida de todas. Anita Diamant conta uma história emocionante dessa ancestralidade nos últimos anos em que o culto às deusas era permitido e que a rivalidade entre mulheres não era incentivada. Dinah, esta personagem deixada de fora dos relatos bíblicos, é representada devidamente e ainda nos faz refletir sobre nossas relações atuais com todas as mulheres de nossas vidas.


Deixo aqui o trailer da série disponível na Netflix, mas, como disse antes, por mais bonita que seja a série, o livro consegue ser ainda melhor!

 

2 comentários sobre “A tenda vermelha: um livro sobre ancestralidade feminina e as mulheres esquecidas da Bíblia

  1. EsterilTipo disse:

    Belíssimo. Fiquei extremamente impressionado com a perspectiva e riqueza de detalhes dos fragmentos aqui transcritos. Mas do que isto, o resgate feito pelas palavras, gerou imagens com muitos significados sobre a condição feminina em todos os tempos.

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