Um recado para mim mesma durante os dias de patinha feia

Eu sei: não está fácil pra ninguém. E particularmente pra mim, uma pessoa sensível que sente demais o tempo inteiro, tudo parece estar ainda pior. Mas antes de falar sobre o hoje, preciso refazer o caminho até aqui, porque preciso tentar pontuar pelo menos algumas das coisas que construíram as minhas aflições – e tenho certeza de que, pelo menos em algum momento, você também vai se identificar com elas.

Nós, mulheres, desde que nascemos, ouvimos uma porção de coisas importantes que guiaram a nossa trajetória por muito tempo, e que nos sugaram – e sugam – energia demais para perdê-las. É preciso ser uma menina comportada, não correr demais, não se sujar demais, não comer demais, não falar demais. É preciso ser uma aluna aplicada. É preciso ser uma moça educada, para demonstrar o empenho dos pais. É preciso construir um ótimo currículo, porque será preciso o dobro de esforço para demonstrar valor no mercado. É preciso ser uma companheira gentil, vaidosa e paciente. É preciso acolher as pessoas, porque mulheres têm facilidade para isso. É preciso… [complete aqui qualquer absurdo que tentaram incluir em seu combo de menina superpoderosa

Foi assim: gente demais falando coisas demais sobre tarefas que nós, em momento algum, concordamos que deveríamos fazer nesse mundo. E, quer dizer, se não concordamos sobre isso, oficialmente não era preciso coisa nenhuma e a gente sofreu um bocado para tentar nos encaixar. Mas, como somos pessoas de sorte suficiente, em algum momento de nossas vidas o Feminismo surgiu, talvez escondido em um conselho, ou através de uma amiga, um livro… seja lá como ele tenha aparecido, o importante é que surgiu para nos ajudar a chutar todas as obrigações que nos perseguiam aonde quer que fôssemos.

Mas eu disse que a aflição continua até hoje, né? Pois é. Esse tal de Feminismo, maravilhoso que é, também nos trouxe uma questão que em nossa ignorância demora compreender verdadeiramente: o tal empoderamento. A grosso modo, empoderar-se ou empoderar alguém é o ato de tomar consciência do poder que adormece em nós. Quando mal interpretada e aplicada, no entanto, o empoderamento – entre outras coisa – pode se tornar uma aflição pessoal, mais uma para ser somada às aflições que nós ainda não deixamos pra trás: é preciso demonstrar esse poder o tempo todo. Então eu, vivendo um dia de patinha feia, escrevo aqui para lembrar a mim mesma em outros dias como este que virão: não é preciso coisa nenhuma.

Quando eu entrei nesse caminho e passei a entender que eu era mesmo feminista, uma mulher que luta pelos direitos das mulheres, fui atraída por isso: seja lá o que tenham me falado que uma mulher deveria ser ou fazer, estava errado. Não porque as mulheres não tenham algumas funções biológicas, políticas e sociais que cabem a elas, mas porque para que qualquer coisa faça parte de nossas vidas, elas precisam ser fruto de escolhas. E o empoderamento é isso: ter consciência dessas escolhas – e também ter consciência de que não precisamos fazer escolhas o tempo todo. 

Muitas vezes eu me pego sendo minha própria opressora: é preciso dar conta de tudo, ser independente, bem resolvida, equilibrada. Ser uma boa namorada, boa filha, boa funcionária. É preciso colher experiências incríveis para brilhar no LinkedIn, ler mais livros interessantes, escrever melhor e mais rápido, assistir aos lançamentos no cinema. É preciso mudar o mundo e mudar de forma rápida, e isso inclui o meu próprio mundo particular. É possível? É, mas não o tempo todo – e está tudo muito bem por eu – aqui, leia-se “nós” – não conseguir.

Era isso que eu queria registrar: está tudo bem não estar tudo bem o tempo todo. Pode ser que esse mal-estar todo seja só por influência da lua, ou fome, ou pode ser mesmo que realmente eu – e todas nós – esteja precisando rever minhas prioridades, organizar melhor meu tempo, pedir ajuda. Mas eu também não preciso ver isso agora, porque sofrer um pouquinho em dias ruins não faz mal a ninguém. Na verdade, pode ser que faça bem: é um pedido de socorro da vida que te pede um banho demorado, uma comida que te abraça por dentro e uma acomodação no travesseiro mais fofo que existir. É um momento bom para abraçarmos a Netflix, um livro, ou só ficar em silêncio. 

Quando estamos assim, sentindo demais, é bem provável a gente pense que não estamos nos lugares certos, nas horas certas, com as pessoas certas. E talvez a gente sinta que é insustentável continuar onde estamos, porque queremos muito mais da vida pra já – e talvez estejamos até certas em querer tudo isso, mas é bom termos um tempo pra nós. Ninguém muda o mundo aflito assim. E que bom que conhecemos o poder que temos, um poder que nos ajuda a valorizarmos o autocuidado para depois pegarmos todas essas aflições, colocarmos no bolso, e sairmos batalhando mundo afora. 

Para dias de patinha feia é preciso só ter paciência e enxergarmos que, na verdade, somos cisnes bonitos pra caramba.

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