“Kindred”: a grande dama da ficção científica em uma obra sobre escravidão e empoderamento

“Comecei a escrever sobre poder, porque era algo que eu tinha muito pouco”. É essa frase que abre a primeira edição de Kindred, publicada no Brasil pela editora Morro Branco depois de 40 anos de sua publicação original nos Estados Unidos. A autora, Octavia Estelle Butler, uma mulher negra nascida na Califórnia em 1947, foi laureada com diversos prêmios e indicada inúmeros outros, mas acabou deixada de fora do mercado editorial brasileiro por tantos anos. Reflexões sobre isso à parte, que bom que ela chegou enfim!

“Kindred: laços de sangue” consagrou Butler como a grande dama da ficção científica, e hoje constitui um dos pilares do que se conhece como Afrofuturismo. Nesta obra, a autora utiliza o elemento literário de uma “viagem no tempo” para colocar sua protagonista Dana, uma mulher negra moderna que vive em 1976 na Califórnia em uma propriedade agricultora em Maryland no auge da cultura escravagista no ano de 1819. 

Ao longo desta história acompanhamos Dana transitar pelo tempo inúmeras vezes: toda vez que um de seus antepassados – um homem branco, o herdeiro da propriedade em que ela “aparece” – está em perigo, Dana vai até ele; no entanto, ela só consegue voltar ao seu próprio tempo quando sua vida está por um fio. Na primeira vez, nossa protagonista vive apenas alguns minutos no século XIX; na segunda, algumas horas; na terceira… A dinâmica da narrativa de Butler é ágil, mas esse livro não é uma leitura fácil: a autora tem muito a dizer sobre racismo, política e feminismo. A cada nova situação que Dana enfrenta, recebemos um soco no estômago. E isso torna Kindred uma leitura obrigatória para todos nós.

Em 1819, em uma Maryland pré-guerra civil, temos mais do que a história de Dana, temos a própria História acontecendo, porque tudo é verossímil, incluindo as personagens histórias que aparecem. Harriet Tubman, por exemplo, uma escrava fugida que conseguiu voltar ao país outras 19 vezes para resgatar cerca de 70 famílias inteiras de escravos. E também Sojouner Truth, escrava liberta que se tornou uma das mais importantes líderes abolicionistas e ativista pelos direitos da mulher, também conhecida pelo discurso “Não sou eu uma mulher”?, de 1851. Mais do que uma obra de ficção científica, temos um livro de História.

E por todo o contexto que apresenta, Octavia Butler não explora tanto alguns recursos de sua história, como a viagem no tempo. Não espere encontrar explicações coerentes para isso, pois tudo o que você entenderá sobre as idas e vindas de Dana virá de suas próprias interpretações. A autora parece deixar essas explicações à parte exatamente para poder explorar belissimamente o curso da História, a vida familiar e os laços de sangue que se estabelecem em um mundo escravocrata.

“Interessante notar que muitas vezes as pessoas têm certa dificuldade em aceitar como verossímeis os conceitos apresentados por uma obra de ficção científica, mas como Kindred nos lembra de forma tão crua, poucas vezes a ficção será tão inexplicável quanto as barbáries que acontecem na vida real. Nada será tão inexplicável ou injustificável como a própria história”, comenta o editor desta edição, Victor Ferreira Gomes.

Com Kindred todos nós viajamos no tempo, observando e engolindo tudo o que os livros de história que estudamos na escola não nos contaram. E sobre o curso da história, sabemos que é muito fácil esquecermos as atrocidades que marcaram anos da humanidade – mas esquecê-las não deve ser uma opção. Com dor no estômago e incômodos infinitos, essa é uma leitura a ser feita. Precisamos encarar de frente o poder opressor do branco sobre o negro, do homem sobre a mulher, todas as opressões que deixaram – e ainda deixam – cicatrizes em nossa sociedade. E, com Kindred, encaramos mais do que isso: encaramos o poder de luta.

Patti Perret/The Huntington Library, Art Collections and Botanical Gardens

“Escrevo sobre pessoas que fazem coisas extraordinárias. E coincidiu disso ser chamado ficção científica”. (Octavia Butler)

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