#diáriodeumcorpo: CrossFit, meu transtorno alimentar e uma máscara que caiu

O CrossFit entrou na minha vida como uma enorme avalanche e muitas mudanças aconteceram. Em poucos meses, saí do sedentarismo e ganhei condicionamento físico. Todo o incentivo que procurava para me cuidar de maneira equilibrada eu encontrei naquele galpão cheio de gente suada e desconhecida, mas que me acolheram em um momento tão difícil.

O grande problema é que, ao contrário do que deveria ser a proposta da prática de um esporte, o Crossfit tornou-se para mim uma velada compensação de meu antigo transtorno alimentar, era um autoengano de que assim eu estava ficando saudável. No entanto, mais do que ter uma boa performance, eu queria estar magra – mais do que eu já estava e não enxergava.

Antes de conhecer o Crossfit, eu havia passado por uma grande mudança pessoal e profissional: ao perder o emprego, tive que mudar de cidade, o que foi um intenso choque de realidade, em meados de novembro de 2014. Depois disso, motivada pelos famosos “planos de ano novo” para mudar minha vida, fui à minha primeira aula de CrossFit. Era dia 07 de janeiro de 2015. Logo na segunda semana de prática, me disseram: “Você tem facilidade em aprender! Continue treinando e em três meses seu corpo vai se transformar, você vai secar”. Aquilo era tudo que eu precisava ouvir.

Em apenas cinco meses de treino abandonei o uso de antidepressivos, que me acompanhavam há mais de um ano. Nas aulas, encontrei força de vontade para encarar a prática de exercícios físicos como uma prioridade em minha vida. Nutri amor por atividades ao ar livre, como corridas e trilhas. Passei a ter disposição para acordar cedo aos finais de semana, fiz uma nova turma de amigos e até iniciei um relacionamento. Nessa época, a dieta não me parecia mais um sacrifício, mas sim um elemento de meu novo estilo de vida. E meu corpo começou a mudar de maneira natural, fazendo com que eu me sentisse livre dos transtornos alimentares.

Ao longo dos meus três anos de treino participei de oito competições. Amigos, parentes e conhecidos passaram a me enxergar como uma pessoa “fitness”, graças às fotos e vídeos que eu postava, e também por notarem os quilos que perdi. Meu círculo de amigos, a timeline das minhas redes sociais, meu guarda-roupas… tudo a minha volta resumia-se ao CrossFit. Não me incomodava com isso, muito pelo contrário, me orgulhava por ter, finalmente, encontrado um estilo de vida em que eu conseguia ter o corpo que sempre idealizara e de forma saudável.

A grande pergunta que me fazem hoje é: então, por que você parou de treinar? Porque o CrossFit foi uma forma que encontrei de me enganar que estava curada.

Nesse período em que treinei meu transtorno alimentar estava disfarçado em uma necessidade de comer para compensar a frustração que sentia – ou seja, não era mais bulimia, agora era compulsão. Eu comia exageradamente (quando estava sozinha) para deixar de me sentir triste e incapaz de ser o que tanto idealizava. E viver neste efeito sanfona me garantiu duas grandes complicações: o retorno da gastrite e a síndrome do pânico.

Vivendo em um ambiente de extrema cobrança, que vinha de minha própria cabeça, atingi o ápice do autoflagelamento: em novembro de 2017 tive uma forte crise de pânico em decorrência da ânsia por emagrecer e treinar mais e mais. Estava extremamente bitolada, como diz minha mãe. Em momentos de crises, sentia dificuldades em dialogar com outras pessoas e era uma tarefa quase impossível sair de casa e fingir estar bem, sentia como se estivesse rodeada por olhos que me julgavam. Precisei me dedicar à minha recuperação para perceber que todo o estilo de vida “feliz e saudável” que eu pensei ter durante muito tempo, era na verdade uma grande enganação.

Fui obrigada a ressignificar diversos aspectos da minha vida para voltar (ou entrar?) aos eixos. Uma das formas de controlar a minha síndrome do pânico foi deixar de lado tudo o que me pressionava, e comecei pelos treinos e dietas. Não foi fácil pois nesse período alguns amigos se distanciaram, entretanto isso me impulsionou a estreitar meus laços com antigas amizades e a conhecer pessoas novas. Também passei a me empenhar mais no trabalho e a dedicar boa parte de meu tempo livre aos estudos – coisas que antes, apesar de minha vontade, eu não sentia que “tinha tempo”.

Algumas semanas foram necessárias até que eu começasse a me sentir mais leve. Ao meu lado permaneceram aqueles que sempre enxergaram que algo ainda estava errado comigo, e que acreditavam que eu veria o mesmo em breve. Minha maior recompensa, depois de tantas crises, foi ouvir de um dos meus melhores amigos: “Estou tão feliz em te ver bem. Finalmente você enxergou o que por anos tentei te dizer”.

Eu vi, e estou vendo. Não me arrependo de nada que fiz. Sigo em eterna aceitação e re(construção).

Um corpo é apenas um corpo, e nós somos muito mais que isso. Estamos juntas!

Observação: O CrossFit é um esporte maravilhoso para o qual dediquei três anos da minha vida e aconselho sua prática para todxs. Para mim, no entanto, não é a melhor opção no momento. Um dia, pretendo voltar aos treinos, mas isso acontecerá apenas quando eu me sentir totalmente blindada de minhas próprias cobranças.


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Mayra Ayres encontrou, aos 27 anos, seu caminho em direção rumo a uma autoestima fortalecida. Depois de 15 anos de transtornos alimentares e de nove anos de vai-e-volta na musculação, consegue aos poucos ter uma vida saudável e feliz e empoderada. É uma jornalista mineira que vive em São Paulo e acredita no poder do feminismo de escrever novas histórias, como a dela. (Para falar com ela, escreva para: contatodiariodeumcorpo@gmail.com)

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