“Feminismo em comum”: o que podemos (e devemos) aprender com Marcia Tiburi sobre o movimento

Devo confessar uma coisa pra vocês: falar sobre feminismo não é tarefa das mais fáceis. Se a gente se deixa levar pelas ideias, que vão correndo soltas pelos dedos que batem no teclado, podemos cometer o erro de pressupor que nosso leitor já sabe de tudo a que nos referimos. Ou então, quando escrevemos, comedidas, tentando reparar cada brecha de dúvida que possa surgir no texto, as palavras ficam enrijecidas, transparecem ótimas ideias, possivelmente, mas não transbordam paixão. Para quem se arrisca, por mais habilidosa que seja, a falar sobre esse grande movimento em constante expansão, essas aflições são inevitáveis. E ontem, quando terminei “Feminismo em comum“, pequeno livro publicado pela “Rosa dos tempos” que prometia ser um belíssimo manifesto desde o começo, soube que Marcia Tiburi, sua autora, tinha feito um trabalho espetacular ao driblar todas essas aflições.

Em seu primeiro livro sobre o feminismo, ela mostra ao leitor que o movimento pode ser algo simples – ao menos conhecê-lo melhor pode ser. Embora sua escrita seja inevitavelmente de um português mais elaborado, em alguns momentos mais acadêmico, poucas palavras surgem ao longo dos textos que exigem um conhecimento prévio. Seja o leitor familiarizado com seu estilo de escrita ou não, Marcia Tiburi se faz entender. Ao longo de 17 textos curtos, ela apresenta alguns de seus pensamentos sobre o feminismo, palavra tão em alta nos últimos tempos (viva!), e que carrega muito poder de transformação.

“Podemos definir o feminismo como uma postura ético-política. Ela nos ajuda a perguntar sobre a felicidade das pessoas que vivem sob signos opressivos, que criam todo tipo de sofrimento para seres humanos e também para não humanos, como os animais. O patriarcado sempre legislou sobre as mulheres, sempre quis dizer o que era melhor para elas – assim como o sistema faz com que as pessoas marcadas como negras, pobres ou diferentes em geral. O feminismo nos convida a deixar que as pessoas oprimidas, coagidas e humilhadas possam falar sobre si mesmas e sejam ouvidas”. 

Referindo-se aos muitos oprimidos em geral, a própria autora também revela a si mesma. Como diz, quando falamos sobre o feminismo, falamos sobre nós, porque precisamos nos expressar e, acima de tudo, sermos ouvidas. Quando uma mulher, feminista, fala sobre suas experiências de vida, seja como mulher nas atividades cotidianas ou como militante deste movimento, e mostra sua história, e por meio dela também as de suas ancestrais, é possível compor um panorama do feminismo. Neste livro, reconhecemos nós mesmas nas muitas histórias que Marcia conta sobre si mesma, sua mãe e avós.

“(…) as mulheres precisam falar de si mesmas em todas as esferas – na arte, no conhecimento, na religião, por exemplo. Assim é que o feminismo pode restituir a cada uma seu lugar legítimo de fala. Por isso é que todas as feministas, de um modo ou de outro, quando escrevem, falam de si mesmas. Aprenderam que o feminismo lhes devolve a biografia roubada. Nesse sentido, o feminismo tem como base ético-política a construção de si, que deve dar às mulheres outro lugar, no campo das decisões”.

Com reflexões como estas, sobre a vida das mulheres que enxergam no feminismo uma ferramenta para transformar a sociedade patriarcal em que vivemos, ela reflete – e explica muito – sobre a violência que assombra não apenas mulheres, mas todas as pessoas que desafiam o patriarcado, que ainda aceita a existência de apenas dois sexos, com comportamentos programados. Ela também nos propõe reflexões sobre as heranças machistas que carregamos – muitas vezes sem querer ou perceber. Tudo isso compõe nossa sociedade, que, para completar, se apoia fortemente no capitalismo, que vê nossos corpos apenas como ferramentas de trabalho. 

Além de todas estas questões, de forma simples e majestosa, Maria Tiburi fala sobre o feminismo interseccional, o que luta contra “sofrimentos acumulados”, como ela diz, e leva em consideração todas as lutas dos oprimidos, seja por sua raça, gênero, sexualidade ou classe social. Nessa luta interssecional, percebemos – caso isso ainda não estivesse claro – que a participação de todos é de extrema importância na luta por um mundo melhor. “Quando lutamos por um lugar de fala, lutamos pelo lugar de todos”, ela conclui. [Ah, já que falamos sobre lugar de fala, sabe aquela conversa sempre proposta pela nossa querida Djamila Ribeiro? Em “Feminismo em comum”, também refletimos sobre isso.]

Com suas 124 páginas, o livro de Marcia Tiburi é para todas, todes e todos mesmo: desde a pessoa que já conhece o feminismo de outros carnavais (é ritmo de festa, né?) até mesmo aquela que ainda não descobriu o quanto é importante lutar pelas causas dos outros. Um mundo melhor e igual para todos só pode surgir com a compreensão de que direitos iguais para todos é fundamental. 

“Penso nisso tudo e não vejo caminho senão começar pelo feminismo, que nos ajuda a ver melhor e mudar o rumo delirante do patriarcado que sempre quis apenas nos usar e devorar e que sempre impediu o diálogo por medo da sua potência transformadora radical. O feminismo em comum é um convite e um chamado para o diálogo e a luta. Aceitá-lo é uma questão de inteligência sociopolítica e de amor ao mundo”.

O convite está feito. Vamos juntxs?

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