“O ministério da felicidade absoluta” e a Índia que (quase) ninguém quer ver

“Toda ficção é política. Mesmo uma história de amor. O ato de tirar uma coisa, manter outra é um ato político. Mas a história de lugares como a Caxemira só pode ser contada em obras de ficção. Os efeitos psicológicos de 25 anos de ocupação, a vida das pessoas, das mães que perderam seus filhos, dos jovens que nasceram sob o regime, nada disso pode ser dito a não ser numa ficção”, disse Arundhati Roy sobre a produção de seu segundo livro ficcional em entrevista a jornalista Maria Fernanda Rodrigues do Estadão.

O ministério da felicidade absoluta” é isso: uma realidade travestida de ficção. Depois de ficar mundialmente conhecida por “O Deus das pequenas coisas”, tornando-se a primeira pessoa indiana a vencer o Man Booker Prize, Arundhati se recolheu. Por 20 anos, ficou afastada dos escritos ficcionais, dedicando-se ao ativismo de causas políticas, ambientais e de direitos humanos. Escreveu manifestos, artigos, livros, fez entrevistas, viajou pelos mais diversos lugares da Índia e, ao notar-se envolta a uma grande história sobre seu país, que não poderia ser contada de forma tão plena em uma não-ficção, ela retornou ao caminho inicial de sua carreira. Aos 56 anos, publicou sua segunda obra de ficção. 

Como ela disse, e eu reafirmei, “O ministério da felicidade absoluta” é ficção e apresenta grandes protagonistas e dezenas de histórias. No entanto, ao reunir tudo isso, Arundhati produzir uma belíssima ode aos excluídos do país. O livro, por sinal, é dedicado a eles, “aos inconsoláveis”, que ela explica – também ao Estadão – ser para todos nós. “Pessoas expulsas, excluídas – e isso não quer dizer apenas os pobres. Todos nós cuja imaginação e crenças são diferentes”.

Entre as dezenas de histórias – individuais e histórias – que ela apresenta, conhecemos as algumas destas seguintes personagens: uma mulher transgênero muçulmana; um órfão abandonado, que gosta de ser chamado de Saddam Hussein, buscando vingar a morte de seu pai; uma jovem arquiteta que se envolve na luta pela libertação da Caxemira; outra criança abandonada em meio a uma das muitas manifestações que tomam as ruas das cidades. Vidas tão completamente diferentes se reúnem para nos mostrar exatamente essa Índia que nenhum ocidental quer ver ou entender: um país plural com suas diversas religiões, crenças, línguas e dialetos – e mais de 1,300 bilhão de pessoas.

Arundhati Roy nos apresenta uma obra linda, bem estruturada e que, ao final, nos deixa diante de nossa própria ignorância sobre as lutas e conflitos que acontecem ao redor do mundo. Porque mesmo que você conheça um pouco desta história, sobre a Índia e a Caxemira, quando conhecemos algumas dessas muitas lutas das pessoas que constituem uma tão plural Índia, refletimos sobre nossos próprios conceitos e crenças. Não é um livro fácil, devo dizer. Suas muitas histórias, em alguns momentos, parecem não levar a lugar algum e apenas acrescentar personagens aleatórios. Eles, entretanto, se encaixam no final do livro, que deixa tudo muito bem esclarecido – ao menos tudo o que é possível que seja.

Arundhati Roy

Arundhati Roy foi a primeira pessoa indiana a vencer o Man Booker Prize por sua primeira obra de ficção, “O Deus das Pequenas Coisas”, em 1997.

Arundhati, sem distinguir entre o certo e o errado, apenas nos apresenta tudo aquilo o que encontrou ao longo da vida, tudo aquilo o que a Índia é. Suas mensagens políticas e sociais, suas críticas como mulher indiana, de alguma forma sutil, ficam bem claras. “Mesmo um pequeno conto de fadas é político de certa forma, porque quando você evita dizer algo, o silêncio é tão político quanto falar sobre”. 

Em “O ministério da felicidade absoluta” vemos o mesmo país, tão conhecido por seus monges, pela tradição do Yoga, pela amorosidade, nos ser apresentado de forma escancarada e sem pudor como um país ainda intolerante com a diversidade, violento e paupérrimo. Essa construção de Arundhati é um grande ato de coragem, mas sua escrita, desde sua primeira obra, é explícita. É digno de nota que essa coragem de falar sobre os problemas da Índia garanta a ela muitos problemas.

Desde seu primeiro livro, em que falou sobre a sexualidade da mulher indiana, questionando a legitimidade do sistema de castas ao apresentar uma história de amor entre duas pessoas que não poderiam se relacionar, até seus escritos não ficcionais, rendem boas perseguições por parte do governo. Sempre que questionada sobre sair de seus país para estar mais segura, ela diz que não faria sentido abandonar seu próprio lar para falar sobre ele. E é por isso que seu escrever é tão político. 

Ao escrever mais uma obra de ficção, ela tem a coragem de chamar a atenção do mundo, mais uma vez, para uma Índia ainda em construção, completamente diferente da imagem de país moderna que temos sobre a Índia aqui no Ocidente. “O ministério da felicidade absoluta” é uma tentativa – muito bem sucedida – de contar uma história estilhaçada. 

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