Um xaveco nunca é só um xaveco – e precisamos falar sobre isso

Deixa eu contar uma coisa: não foi a primeira vez, nem será a última, mas de novo aconteceu o tradicional xaveco de festa. Acho que todas nós passamos por isso infinitas vezes ao longo da vida, né? E digo “tradicional”, porque já está na consciência coletiva de que é normal que, a qualquer momento, um ser humano, com total intenção de invadir o seu espaço, chegue até você e fale qualquer tipo de obscenidade. Em  uma situação dessas, espera-se de nós apenas duas reações: aceitar aquilo como uma paquera ou ignorar, seguindo o baile como se nada tivesse acontecido (mas não se esqueça de não ser tão mal-educada  porque, se deixá-lo ofendido, ele pode ficar agressivo com você). Então, vejam bem, é preciso estarmos preparadas o tempo todo: fisicamente e psicologicamente treinadas na arte de ir a festas.

Como eu disse, aconteceu mais uma vez e isso me deixou possessa, constrangida e esgotada. Fiquei dias pensando sobre isso e, na verdade, acho que todas nós estamos, não é? Fiquei pensando na quantidade de energia que gastamos pensando na opressão do mundo, lidando com as situações absurdas que encontramos por aí – sejam nas festas de faculdade, em bares, no trabalho. É muito, porque temos muito com o que lidar. Precisamos pensar nos problemas e em como resolvê-los, prever possíveis violências, tentar ao máximo evitá-las, e depois (tentar) esquecer tudo e curtir momentos de lazer. Ou seja, não é fácil ser mulher no mundo. Vocês sabem.

Será que vocês também pensam nessa energia gasta para estarmos sempre esperando uma abordagem e preparadas para nos esquivar, ou reagir? Será é possível que ainda hoje alguém ache que xavecar alguém é respeitoso ou que, realmente, abordar aleatoriamente alguém que está feliz em algum lugar, procurando apenas o próximo copo de cerveja, falando absurdos e chegando perto o bastante para assustá-la é legal? Revoltada, esgotada e chateada, deixo aqui meu desabafo: estou chateada, porque transformou um momento de total descontração em algo com sensações ruins; me deixou constrangida, porque é inevitável pensar no “por que eu?”; e me deixou revoltada porque não estava preparada o bastante para revidar e apenas deixei aquilo para trás. Tudo, por sinal, poderia ter ficado para trás e eu ter seguido a vida e nunca mais ter pensado nisso, mas ainda bem que as coisas não funcionam assim. A gente só chama a atenção para esse tipo de situação quando falamos, pensamos e expomos isso.

“E se eu tivesse feito isso?”… “Eu devia muito ter falado aquilo”… E aqui surge também aquele péssimo hábito de nos julgarmos demais. Vocês, feministas, também se cobram para estarem sempre preparadas para rebater os machismos diários? Esse texto é sobre uma revolta por ainda existirem caras que acham abordagens assim aceitáveis, mas também é sobre autojulgamento, sobre a cobrança por não ter estado preparada quando uma situação ruim surgiu. E isso dói. E talvez doa duplamente porque, além de não ter feito o que gostaria, também há aquela voz que diz que talvez seja exagero, que é preciso relaxar mais. Será que dói também em vocês? Se sim, faço jus a todas nós com este desabafo.

Antes de tudo é preciso dar nome ao xaveco confundido com paquera, ao elogio que incomoda, ao beijo roubado, ao contato físico imposto: chama-se assédio. Não, um xaveco nunca é só um xaveco, o fiu-fiu na rua nunca é um elogio, o contato físico não autorizado não é lisonjeador. Às vezes uma mulher quer apenas sair de casa, ir a uma festa, beber e dar umas boas risadas sem se preocupar com o restante do mundo. E é complicado fazer isso, porque quando uma mulher sai de casa, ela precisa pensar em muitas coisas: em quantos drinks pode beber para ficar alegre o bastante, mas não indefesa; em estar atenta o bastante para perceber se está sendo observada, ou seguida, ou se o cara que veio falar com ela, na verdade, não é um problema futuro; onde ir caso se sinta mal e não encontre seus amigos rapidamente… Entende? A intenção de sair de casa e se divertir sem se preocupar com a opressão do mundo é mais difícil do que parece. 

Apesar disso, a gente tenta. Tenta se divertir e estar preparada, tudo ao mesmo tempo, mas nem sempre dá, e escrevo agora como uma forma de libertação para me lembrar – e lembrar a todas  nós – de que está tudo bem não estar preparada sempre. Tudo isso é um saco e dói, mas não é todo dia que a gente acorda empoderada, pronta pra sair pro mundo e rebater toda e qualquer manifestação de machismo. Às vezes estamos desatentas. Não é todo dia que a gente se olha no espelho e tem a certeza de que temos direito aos espaços e a nossa própria voz, porque a maioria de nós não foi criada pra enfrentar estes problemas, mas para apaziguar situações, quando não a nos submeter. E está tudo bem não conseguir sempre. 

O empoderamento que a gente tanto deseja para todas nós é uma construção diária: nos empoderamos a cada vez que conhecemos mais a luta pelos direitos iguais, a cada vez que ajudamos uma mulher a se libertar de amarras, a cada vez que conseguimos rebater uma atitude machista – disse uma, não todas. Sendo uma construção diária, quando não dá certo, a gente foca na próxima, porque combater uma é melhor do que combater nenhuma. Precisamos nos lembrar de que nossas vitórias não acontecem todos os dias e que a culpa disso tudo não é absolutamente nossa. O problema está no mundo – nas pessoas – que acha que está tudo bem oprimir mulheres, retirar seus espaços, assustá-las no desenrolar de um dia comum.

Eu me liberto dessa necessidade de estar preparada sempre, da minha cobrança e acolho minha raiva pelo ocorrido – e a raiva de cada uma de vocês que também se sentem assim. Eu sei que dói quando não conseguimos demonstrar toda a força e coragem que habitam em nós. Mas isso deve passar e servir como impulso para novas lutas. Só queria dizer que precisamos nos lembrar de não sermos tão exigentes com nós mesmas. A gente quer mudar o mundo e engole angústias mil por isso, mas sermos gentis conosco também é importante. Nós temos tanto direito aos espaços e às nossas vozes quanto temos em ficarmos bravas e tristes com situações de assédio, mas precisamos deixar a raiva passar. Só nós mesmas sabemos a força que temos, então, simos o baile, porque muito, muito em breve estaremos prontas para tudo, ao nosso próprio tempo. 

 

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