A cultura feita por mulheres: um manifesto

Há um ano, tive uma grande crise existencial. Geralmente, eu tenho muitas, quase todos os dias, então, por alguns momentos pensei que essa não fosse preocupante, mas foi especial: de repente, me vi quase aos 25 anos sem ter feito nada que, de fato, mudasse minha vida, ou a vida de outras pessoas. Para muita gente algo assim não chega a ser um grande problema de vida, mas, pra mim, capricorniana que sou com todos os piores ascendentes e luas possíveis, significava muita coisa. Então, passei dias me dedicando a pensar em como eu poderia fazer algo interessante. Algo que tivesse a ver com o que eu estudava, com as coisas das quais gostava, que era todo o tipo de cultura, e que, de alguma forma, agregasse na vida de outras pessoas, principalmente mulheres.

Existe um livro chamado Minha história das mulheres, de uma autora que se chama, coincidentemente, Michelle. Michelle Perrot, no caso. Nessa obra, ela fala sobre a importância da representatividade e do registro de histórias de mulheres, sobre como isso é um elemento fundamental para o mundo em construção, porque durante muitos e muitos anos as histórias das mulheres ficaram apenas em diários pessoais. E foi aí que pensei em criar o Clarices e Marias, e essa se tornaria a minha contribuição para um mundo melhor.

Como vocês sabem, no Clarices e Marias eu falo sobre todo o tipo de expressão cultural. Mas para que seja viável este pequeno manifesto, vou focar em literatura e contar pra vocês por que acho importante registrar, falar sobre e homenagear autoras mulheres. Vocês sabiam que o prêmio Nobel de Literatura, que existe desde 1901, foi destinado a apenas 14 mulheres durante esse tempo todo? Ou que aproximadamente 70% dos autores publicados no Brasil são homens?

Estudio808-ClariceseMarias-4236

No último sábado, 30 de setembro, o Clarices e Marias reuniu mulheres incríveis em Campinas/SP para falar sobre a cultura produzida por mulheres

Sabiam que a Academia Brasileira de Letras tem 40 membros, mas só 5 mulheres? Ou já repararam que das 15 edições da FLIP, uma das festas literárias mais importantes do país, que homenageia um autor a cada ano, apenas duas mulheres foram homenageadas? Calma, que tem mais: vocês talvez também não tenham se atentado, mas em todos os principais prêmios literários brasileiros, entre os anos de 2006 e 2011, foram premiados 29 autores homens e apenas uma mulher. E para encerrar, pergunto: vocês ficaram incomodados com o fato de apenas uma mulher estar entre os 10 finalistas da categoria Melhor Livro de Romance do Ano do Prêmio São Paulo de Literatura? Se todas essas informações assustaram vocês, então entendem o que eu quero dizer.

Por tudo isso (e por todas as outras injustiças que não mencionei), eu precisava exaltar essas mulheres que estavam fazendo cultura, mas não estavam sendo reconhecidas, vistas, divulgadas. Se vocês pegarem algum machista por aí, vão ouvir que esses dados são ruins para as mulheres, de fato, mas porque mulheres não produzem tanta cultura quanto homens; que mulheres se dedicam menos às suas carreiras, porque elas têm o papel de serem mães; que mulheres… e etc., etc., etc. As desculpas são muitas e as causas para esses dados horríveis também, mas não podemos falar que mulheres são deixadas à margem da cena cultural porque elas querem isso. Muito pelo contrário.

O fato é que, através do Clarices e Marias, divulgando cultura feita por mulheres, seja aquela mulher já famosa que saiu na revista Piauí desse mês ou aquela autora estreante de qualquer cidadezinha do interior do Brasil, eu estava e estou aqui dando a minha contribuição para um mundo mais igualitário. Focando em cultura, sim, porque acredito é dessa forma que uma sociedade pode verdadeiramente se transformar.

Durante um ano, li exclusivamente livros escritos por mulheres. E sabem o que eu descobri? Que a lista de livros incríveis que mulheres estão escrevendo e escreveram desde o início dos tempos não acaba. Minha pilha de livros só aumenta: a cada livro que eu leio, pego mais referências e quero me aprofundar naquela autora lida, a cada vez que falo sobre uma autora ou um tema, outras mulheres me indicam novos livros, autoras, assuntos relacionados. E isso vale para todos os filmes feitos por mulheres, pelas exposições, cursos e artes que estão sendo feitas por mulheres todos os dias.

Estudio808-ClariceseMarias-4531
Michelle Lopes é jornalista, literata e criadora do Clarices e Marias.

Muitas vezes, quando eu falo sobre um livro, recebo uma mensagem de alguém que me diz: “Michelle, li o livro que você recomendou e achei fantástico! Como eu nunca tinha ouvido falar nessa autora”? Pode ser que a gente esteja falando de uma autora famosa e que essa pessoa nunca tenha ouvido falar sobre ela por estar focada em outros assuntos, mas também pode ser que estejamos falando de uma autora independente, e que ela nunca tenha ouvido falar porque as pessoas não falam muito sobre essas produções. Quando isso acontece, meu papel como criadora do Clarices e Marias faz sentido: uma autora independente começa a ter uma maior valorização, mesmo que pequena. E reconhecimento é tudo o que nós queremos.

Quando eu pensei em criar o Clarices e Marias, queria falar sobre feminismo, porque esta é uma contribuição de uma feminista que está luta por um mundo melhor do jeito que acha mais válido. Mas queria fazer de uma forma sutil. Eu queria falar sobre o feminismo, mas sabia que me declarar feminista logo de cara poderia assustar muita gente que ainda não tivesse contato com o movimento. Porque, sabemos, as feministas assustam e seja lá qual a imagem as pessoas tenham de nós, muitas vezes não é boa, não. Mas o que querem as feministas? Igualdade. Igualdade em todos os níveis de existir enquanto ser humano. Por isso eu criei o Clarices e Marias de forma que eu falo sobre o movimento, mas fazendo as pessoas pensarem na desigualdade, em quanta cultura feita por mulheres, por exemplos, elas estavam deixando de valorizar. Foi uma maneira de, sutilmente, alguém nunca tinha ouvido falar no movimento ter a atenção chamada para esse assunto. E como teve!

Vou dar um exemplo, sem me alongar muito: há um ano, quando fiz o primeiro vídeo explicando sobre o projeto, recebi uma inbox de um amigo que dizia: “Eu estou muito em choque. Vi seu vídeo e fui até a minha estante ver quantos livros escritos por mulheres eu tinha, e eu não tenho nenhum. Nunca tinha reparado nisso”! Foi a primeira vez que tive a certeza de que meu projeto era necessário, e isso acontece a cada mensagem que eu recebo de alguém que me acompanha. Por isso tudo, quero deixar aqui meu manifesto, em homenagem ao primeiro ano de Clarices e Marias:

Eu, como feminista, quero que os responsáveis por selecionar obras para premiações olhem igualmente para todos os gêneros e que deem oportunidades iguais para todos mostrarem seus trabalhos. Eu quero que mulheres que escrevem tenham oportunidades iguais de publicar um livro, sem que desvalorizem suas obras por elas serem mulheres. Eu quero que as pessoas parem de achar que mulheres escrevem apenas romances românticos e que, ao publicar um livro, essas mulheres escrevam aos quatro cantos seus nomes, sem precisarem se disfarçar com algum pseudônimo para que seu nome tenha mais respeito. Eu queria ter conhecido Joanne Rowling, ao invés da J. K. Rowling, que teve que abreviar seu nome para Harry Potter, recusado inúmeras vezes, fosse enfim aceito. No fim das contas, essa série vendeu mais de 450 milhões de cópias em todo o mundo e foi traduzida para mais de 76 idiomas. E eu queria reconhecimento para essa mulher desde seu primeiro dia como escritora, assim como quero para todas as mulheres, independentemente de suas áreas de atuação.

Estudio808-ClariceseMarias-0075

Participantes do encontro “A cultura produzida por mulheres: o que aprendi durante um ano de Clarices e Marias”

Como vocês podem ver, eu quero muitas coisas e isso me deixa muito aflita. O Clarices e Marias é sobre literatura, sobre cultura em geral, mas é principalmente sobre feminismo, sobre igualdade. Porque eu quero todas essas muitas coisas e quero que mulheres sejam livres e felizes, eu acho importante exaltar outras mulheres. E por cada mínimo esforço que cada um de nós fazemos pela igualdade de gênero, eu vou inverter aqueles dados que falei no começo deste texto. Eu quero falar os nomes daquelas mulheres, porque elas não trabalharam tão duro para estarem escondidas em números ruins:

Em 1858, Selma Lagerlöf foi a primeira mulher a ganhar um Prêmio Nobel de Literatura. E a última a ganhar esse prêmio, em 2016, foi Svetlana Alexievich, primeira mulher bielorrussa a ganhar o Nobel. No Brasil, 27,3% dos autores publicados já são mulheres, antes esse número era ainda menor. A FLIP homenageou duas escritoras brasileiras fabulosas em sua história: a Clarice Lispector e a Ana Cristina César. No ano passado, o melhor livro do ano do Prêmio São Paulo de Literatura, foi de Beatriz Bracher, e neste pode ser de Maria Valéria Rezende.

Mudar o foco faz toda a diferença e pensar sempre nas conquistas sempre faz com que tudo o que foi alcançado até aqui tenha valido mais do que a pena. Para encerrar, eu quero dar voz a Rebecca Solnit, autora do livro Os homens explicam tudo para mim, último livro que resenhei para o Clarices e Marias, porque ela fala exatamente sobre isso: “O feminismo é um esforço para mudar algo muito antigo, muito difundido e profundamente enraizado em muitas culturas, talvez na maioria delas em todo o mundo, em inúmeras instituições e na maioria dos lares na Terra – e também na nossa cabeça, onde tudo começa e termina. O fato de que uma mudança tão grande tenha sido realizada em quatro ou cinco décadas é incrível; o fato de que nem tudo tenha mudado de maneira permanente, definitiva, irrevogável não é um sinal de fracasso”.

“Aqui está aquela estrada, talvez com mil quilômetros de extensão, e a mulher que vai caminhando por ela não está no quilômetro um. [Porque nossa luta não começou agora] Não sei até onde ela vai prosseguir, mas sei que não está recuando, apesar de tudo – e ela não está caminhando sozinha. Talvez nessa estrada haja incontáveis homens e mulheres, e também pessoas de algum gênero mais interessante. Eis a caixa que Pandora tinha nas mãos e as garrafas de onde os gênios foram libertados; hoje nos parecem prisões e caixões. Nesta guerra [contra o machismo] morrem pessoas, mas não é possível apagar as ideias”.

Por cada ideia de igualdade que vocês me ajudam a divulgar todos os dias, meu muitíssimo obrigada. 

 

2 comentários sobre “A cultura feita por mulheres: um manifesto

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s