Goose Island Sisterhood: a confraria criada para provar que cerveja é assunto de mulher, sim

Se você é uma mulher que gosta de cerveja ou tem o costume de frequentar bares e afins, é muito provável que você já tenha ouvido frases do tipo: “meu deus, você bebe como um homem!”, “que sorte do seu namorado ter uma mulher cervejeira, hein?!”, “ei, moça, posso te sugerir uma cerveja levinha?”, “então quer dizer que você gosta de cerveja… só falta dizer que gosta de futebol”… E esses são apenas alguns dos muitos exemplos de comentários preconceitos que rodeiam as mulheres nestes ambientes cervejeiros. Para muitos, cerveja é coisa de homem, seja para beber ou fazer cerveja. Mas a história não é bem assim, não.

Muitos historiadores acreditam que a cerveja nasceu no Oriente Médio ou no Egito lá por volta do ano 9000 a.C. Nessa época, antiga pra caramba, produzir cerveja era uma atividade caseira, assim como fazer pão ou cozinhar alimentos para toda a família. Com essa informação você deve imaginar que as responsáveis pela produção da cerveja da família eram, sim, as mulheres. (Uma curiosidade: até o século XVI, na região norte da Alemanha, os utensílios para produção de cerveja faziam, inclusive, parte do enxoval das noivas). Para encurtar a história: as mulheres eram protagonistas da produção de cervejas desde o início, mas, como na maioria das áreas, foram relegadas à margem pela sociedade patriarcal. Injusto, né? Pois é.

Com o passar do tempo, especificamente nos últimos anos, o mercado cervejeiro começou a ser invadido por mulheres que, conhecendo a força de sua história e de seu poder, resolveram que, sim, elas poderiam trabalhar com cerveja. E é aqui que eu apresento nossa magnífica entrevistada da vez: Beatriz Ruiz. Essa mulher, gerente de conhecimento cervejeiro da Ambev, uma das maiores instituições de cerveja do mundo, teve uma ideia: criar a Goose Island Sisterhood. É uma confraria de mulheres que se reúne para beber, claro, e falar sobre a participação feminina neste mercado, além de produzir cervejas especiais para homenagear grandes mulheres brasileiras, revertendo o lucro para instituições que promovam o empoderamento feminino. 

Na última semana, na Goose Island Brewhouse, localizada em São Paulo, onde toda a mágica acontece, foi lançada a cerveja produzida em setembro: chamada “Nísia”, homenageia a brasileira Nísia Floresta, considerada a primeira feminista do país. Quer conhecer mais esse projeto? Confere a entrevista linda que o Clarices e Marias fez com a Be:

Clarices e Marias: Como surgiu a ideia de montar um projeto que busca resgatar o protagonismo das mulheres no mundo cervejeiro?

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Beatriz Ruiz, feminista e cervejeira, trabalha neste mercado desde 2012

Beatriz Ruiz: Eu sempre quis fazer um projeto com mulheres. Depois de muitas de minhas palestras, cursos ou degustações, as poucas mulheres que participavam vinham falar comigo, animadas com o fato de que elas poderiam beber, gostar ou mesmo trabalhar com cervejas. Existem muitas confrarias e coletivos femininos que promovem isso, mas geralmente são compostos por mulheres que já gostam ou trabalham no mercado. Minha ideia era trazer mais mulheres para este mundo cervejeiro, mulheres que talvez nem imagem que gostem da bebida ou que podem trabalhar com ela.

Então, no início deste ano, a gente tinha acabado de inaugurar a Goose Island Brewhouse, a cervejaria aqui em São Paulo, quando eu vi uma ótima oportunidade para fazermos algo especial. A ideia no começo era só fazer uma cerveja para o Dia Internacional da Mulher, e para isso convidei oito mulheres de universos completamente diferentes, mas que eram feministas ou que trabalhavam com o empoderamento feminino. Éramos só duas cervejeiras neste grupo e foi muito legal! Depois disso fizemos alguns encontros e decidimos fazer quatro cervejas neste ano, cada uma homenageando uma mulher diferente.

A Goose Island Sisterhood é um projeto que se tornou maior do que a gente imaginava: hoje estamos com mais de 700 mulheres no grupo no Facebook e muitas delas vêem de várias regiões do Brasil  para participar dos encontros e brassagens. Era isso o que eu queria: trazer mais mulheres para esse universo e mostrar que ele é nosso.

CM: Seria natural esperar que um projeto como esse enaltecesse figuras femininas. A primeira cerveja produzida homenageou a primeira escritora negra do Brasil; a segunda, a primeira engenheira negra; e agora, a primeira feminista. Como vocês pensaram nestas mulheres?

BR: A homenagem a esta primeira mulher foi ideia da Stephanie Ribeiro: “Por que a gente não chama de Carolina e homenageia a Carolina Maria de Jesus”? E assim aconteceu. Nós sempre fazemos a cerveja de acordo com a mulher que estamos homenageando e também doamos o lucro para alguma instituição que trabalhe com empoderamento feminino. A Carolina, por exemplo, fizemos uma Sour com goiabada, porque ela era de Minas Gerais e uma mulher que escrevia com certa acidez e, ao mesmo tempo, com humor. Os lucros dessa cerveja foram doados para o coletivo Di Jejê, que trabalha o feminismo negro.

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Algumas das mulheres presentes na última brassagem da Goose Island Sisterhood

Na segunda, homenageamos a Enedina Marques, primeira engenheira negra do Brasil e a primeira engenheira mulher do Paraná, com lucros revertidos para a Maria LaB. Como a Enedina era uma mulher forte e enérgica, fizemos uma cerveja forte em álcool, em potência e sabor; e colocamos pinhão, porque ela era de Curitiba.

Agora estamos homenageando a Nísia Floresta, primeira feminista do Brasil, em parceria com o Think Olga, que trabalha o empoderamento feminino através do conhecimento. A Nísia era do Rio Grande do Norte e por isso estamos fazendo uma cerveja com caju, e no estilo Bière de Garde, um estilo francês, porque ela morreu na França.

As sugestões vão aparecendo, mas ainda temos muitas mulheres para homenagear. Queremos falar sobre música, esporte, dança… Queremos homenagear as mulheres do universo da arte em geral.

CM: O Clarices e Marias é uma página que fala sobre iniciativas de mulheres que promovem cultura. Neste caso é a cultura cervejeira criando espaços e homenageando mulheres incríveis da nossa história. Essa luta, a meu ver, é muito feminista. É a busca pela igualdade e pelo reconhecimento que todas merecemos, seja em qual área for. Você também encara dessa forma? 

BR: Com certeza. Eu quis fazer justamente por isso. Existem muitos projetos aparecendo na nossa área, muitos coletivos e confrarias, mas sempre para mulheres que já participam do mercado. Minha intenção foi criar algo que mostrasse para outras mulheres que elas também poderiam participar desse universo, que é mesmo muito dominado pelo público masculino.

Eu faço isso, comecei o projeto e continuo nele, para mudar o mundo. É um trabalho de formiguinha e está mudando a cabeça de apenas algumas pessoas, mas está acontecendo e trazendo outras pessoas para esse lado. É um trabalho que faço para mudar o mundo, porque acredito que as coisas podem ser construídas assim, e esse é mesmo o sonho de Ambev. E na empresa todos gostam muito da Goose Island Sisterhood, já que um dos nossos mandamentos diz: “bring people together for a better world”. Trabalhamos com cerveja, que une pessoas em momentos especiais, e trabalhamos por um mundo melhor. Precisamos olhar cada vez mais para isso tudo e me orgulho de já conseguirmos realizar esse projeto.

CM: Ser mulher no mundo não é fácil e as mulheres que se inserem em mercados que se tornaram tão “masculinizados”, como o mercado cervejeiro, enfrentam uma dose dupla de desafio, né? Como é ser uma cervejeira?

BR: Num geral, é bom. Tive alguns percalços no mercado das microcervejarias no começo da minha carreira, infelizmente. Mas tudo isso em um momento em que eu estava me reconhecendo feminista. Eu nem sabia o que era isso direito. Eu aguentava muita coisa calada que hoje em dia eu jamais aguentaria. Por isso eu faço esse projeto, para discutirmos sobre o assunto e evitarmos que situações que minimizem a mulher ou a excluam deste mercado e de outros possam acontecer.

CM: Falamos até aqui porque, nesse momento, estamos conversando sobre uma confraria de mulheres que buscam a representatividade que merecem dentro deste mercado. Você acredita em uma melhora possível?

BR: Acho que vai demorar. Não só no mundo cervejeiro, mas no mundo todo. Mas essa transformação é feita com o trabalho de formiguinhas mesmo, e por isso precisam existir cada vez mais projetos assim. Precisamos nos juntar para fazer com que o mundo seja cada vez melhor. O mundo num geral.


Quer prestigiar a confraria? Olha só: as cervejas não são envasadas nem distribuídas, então tem que aproveitar os lançamentos e tomá-las direto na fonte! A mais recente, a Nísia, está fresquinha te esperando lá na Goose Island Brewhouse (R. Baltazar Carrasco, 187 – Pinheiros – São Paulo). 

E você, mulher, que ficou interessada em conhecer mais e participar das brasagens e encontros, é só ficar de olho aqui no nosso grupo do Facebook (clique aqui). E eu disse nosso, porque, como você pode imaginar, essa que vos escreve aqui também é uma cervejeira. Saúde!

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