“Os homens explicam tudo para mim” e a luta feminista de Rebecca Solnit

Rebecca Solnit tinha sete livros publicados quando o episódio que deu origem ao primeiro ensaio de “Os homens explicam tudo para mim” – e que dá nome ao livro, por sinal – aconteceu: em uma festa, um homem achou interessante o fato de ela ser escritora e pediu para que ela falasse mais sobre suas obras. Como já possuía várias publicadas, Rebecca decidiu falar sobre seu último livro, mas ao revelar o tema, foi interrompida pelo homem, que passou então a contar sobre um livro que ele havia lido sobre o mesmo tema e que jurava que Rebecca também precisava ler. Apesar das tentativas da autora de retornar a falar, ele insistentemente explicava sobre o livro, sobre sua importância e tudo mais. Rebecca e uma amiga, que também acompanhava a cena constrangedora, continuavam tentando interrompê-lo, mas ele não as deixava falar. Resumo da história: quando por fim conseguiram, apenas avisaram que (PASMEM!) ele estava falando exatamente sobre livro de Rebecca.

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Publicado em 2017 pela Cultrix, “Os homens explicam tudo para  mim” apresenta um relato honesto sobre a situação da mulher na sociedade atual

Poderia ter sido um fato isolado, mas não. A situação constrangedora repetiu-se várias vezes ao longo da vida de Rebecca, com temas e pessoas diferentes, e então ela decidiu escrever um ensaio chamado “Os homens explicam tudo para mim”. Quando publicado no TomDispatch, viralizou. Foi assim que Rebecca passou a ser considerada a criadora do termo mansplaining, que é, basicamente falando, quando um homem insiste em explicar algo óbvio a uma mulher, como se ela não fosse capaz de entender ou já saber o que está sendo explicado.

Agora que vocês já sabem a origem do livro, vamos falar mais sobre ele: “Os homens explicam tudo para mim” reúne nove ensaios de Rebecca que falam sobre temas diversos, incluindo o tal episódio de mansplaining, mas não só ele. À primeira vista pode parecer um livro mais ou menos, desses de leitura fácil e morna, mas não é. É ácido, visceral e impactante. Se eu pudesse dar um conselho a você, leitor, seria esse: leia este livro. E nos parágrafos que se seguirão tentarei fundamentar meu conselho. 

Nos Estados Unidos, três mulheres são assassinadas todos os dias pelo cônjuge ou ex-cônjuge. Neste mesmo país, uma mulher é espancada a cada nove segundos e um estupro é registrado a cada 6 minutos e doze segundos. Registrado. Esse último dado, infelizmente, traz outra estatística: ele significa que uma a cada cinco mulheres será estuprada ao longo da vida. Esses são alguns dos dados que Rebecca apresenta, mas só para contextualizar melhor a importância deste livro para o leitor brasileiro, eu trago mais alguns: em 2016 uma em cada três mulheres sofreram algum tipo de violência no Brasil, segundo pesquisa da Datafolha encomendada pelo Fórum Brasileiro de Segurança. Rebecca Solnit, com total propriedade, nos mostra em seu livro que a violência não tem apenas raça, classe, religião ou nacionalidade, mas também tem gênero. Sobretudo, gênero.

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Rebecca Solnit, escritora estadunidense, hoje com 56 anos. ( Crédito: David Butow/for the Times)

“Toda mulher sabe do que eu estou falando. São as ideias preconcebidas que tantas vezes dificultam as coisas para qualquer mulher em qualquer área; que impedem as mulheres de falar, e de serem ouvidas quando ousam falar; que esmagam as mulheres jovens e as reduzem ao silêncio, indicando, tal como ocorre com o assédio nas ruas, que esse mundo não pertence a elas. É algo que nos deixa bem treinadas em duvidar de nós mesmas e a limitar nossas próprias possibilidades – assim como treina os homens a ter essa atitude de autoconfiança total sem nenhuma base de realidade”.

Falando sobre homens, é preciso incluir aqui uma ressalva de Rebecca: apesar de ser considerada a criadora do termo mansplaining, ela insiste em dizer que não o considera correto – e evita usá-lo -, porque generaliza uma situação a todos os homens e, devemos sempre reconhecer, não são todos os homens que colaboram para a opressão das mulheres. Este, no entanto, é um argumento muito usado por homens que querem retirar o foco das violências sofridas pelas mulheres. “Nem todo homem é machista”, eles dizem. Esse livro, o feminismo e toda a luta das mulheres não é para discutir se todos os homens são machistas ou  não. Sabemos que nem todos são, mas o fato é que todas as mulheres têm medo daqueles que são. 

Lembra-se daqueles dados que falei acima? Você já parou para pensar que uma parcela significativa das mulheres que você conhece é composta de sobreviventes de violência sexual? Já parou para pensar que todo dia, interna ou externamente, as mulheres passam por lutas das quais, muitas vezes, você nunca saberá? Ou ainda já pensou em quanto tempo e energia nós, mulheres, estaríamos dedicando a muitas outras coisas importantes caso não estivéssemos tão preocupadas em sobreviver? Sobreviver a um relacionamento abusivo, a uma saída durante a noite para ir a qualquer lugar, sobreviver a uma festa ou mesmo a todas as imposições sociais? Entende porque é tão importante que uma mulher tenha voz, espaço, segurança e liberdade?

“O feminismo é um esforço para mudar algo muito antigo, muito difundido e profundamente enraizado em muitas culturas, talvez na maioria delas em todo o mundo, em inúmeras instituições e na maioria dos lares na Terra – e também na nossa cabeça, onde tudo começa e termina. O fato de que uma mudança tão grande tenha sido realizada em quatro ou cinco décadas é incrível; o fato de que nem tudo tenha mudado de maneira permanente, definitiva, irrevogável não é um sinal de fracasso”.

Ao contrário de alguns livros feministas que já li, “Os homens explicam tudo para mim” dá esse abraço apertado no final como se dissesse “vai ficar tudo bem”. Rebecca aponta todos os problemas, todos os dados alarmantes que nos afligem todos os dias, mas também comemora alguns feitos das últimas décadas. É louvável que cada vez mais pessoas se conscientizem de viverem em uma cultura que aceita a existência da violência sexual, a chamada “cultura do estupro”. É incrível que muitas das lutas feministas tenham conseguido mudar e melhorar algumas leis para que mulheres estejam cada vez mais protegidas e amparadas da violência. É mais maravilhoso ainda que muitas pessoas estejam se empenhando para construir uma sociedade melhor, mais segura e justa para todos.

“Aqui está aquela estrada, talvez com mil quilômetros de extensão, e a mulher que vai caminhando por ela não está no quilômetro um. Não sei até onde ela vai prosseguir, mas sei que não está recuando, apesar de tudo – e não está caminhando sozinha. Talvez nessa estrada haja incontáveis homens e mulheres, e também pessoas de algum gênero mais interessante. Eis a caixa que Pandora tinha nas mãos e as garrafas de onde os gênios foram libertados; hoje nos parecem prisões e caixões. Nesta guerra morrem pessoas, mas não é possível apagar as ideias”.

É impossível apagar ideias, então vamos divulgar essa: igualdade. Se eu estiver conseguindo ser a feminista que te faz repensar alguns conceitos com meus textos e, mais ainda, conseguir que você se anime a ler livros como este, minhas queridas e queridos, já terá valido a pena a caminhada. Vamos juntos?

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