As mulheres de Carol Rossetti: poderosas lições de respeito e amor-próprio em ilustrações

A mensagem é poderosa, então preciso reproduzir exatamente como está: “Existem mulheres negras, brancas, morenas, latinas, asiáticas, indianas, indígenas. Existem engenheiras, donas de casa, prostitutas, senadoras, artistas, executivas, atrizes. Há mulheres cegas, surdas, mudas. Mulheres bipolares, deprimidas, suicidas, ansiosas. Mulheres trans, binárias, não binárias, intersexo. Existem heterossexuais, lésbicas, bissexuais, arromânticas, pansexuais, assexuais. Mulheres que têm três orgasmos por dias e mulheres que nunca tiveram nenhum. Mulheres que usam muita maquiagem, mulheres que não suportam batom, que não fazem as unhas, que nunca tomam sol; mulheres que colocam silicone e que fazem mil cirurgias plásticas”.

 

“Existem mulheres que escolhem dedicar suas vidas a seus filhos e mulheres que não têm nenhum desejo de começar uma família. Há mulheres que gostam de comédia romântica, outras que gostam de filmes de terror e outras que não gostam de cinema. Mulheres que se vestem de preto e mulheres que preferem rosa. Existem mulheres cristãs, ateias, budistas, islâmicas. Há mulheres que não são ativistas, que nunca ouviram falar em feminismo, que nunca discutiram racismo. Mulheres que lutam de formas diferentes, a partir de ideias que não conhecemos. Existem mulheres que têm vergonha de compartilhar suas escolhas por medo de serem julgadas. E existem mulheres que discordam de tudo isso que eu disse até aqui. São tantas mulheres diferentes no mundo que eu poderia continuar para sempre. Cada uma tem sua própria história, e acredito que todas elas merecem ser ouvidas e representadas”.

 

61aBszaG0AL.jpgÉ assim que Carol Rossetti apresenta seu trabalho compilado no livro “Mulheres: retratos de respeito, amor-próprio, direitos e dignidade”, publicado impecavelmente pela Editora Sextante. Com retratos de mulheres que apresentam histórias de vida humanas e singulares, a designer promete – e cumpre – uma leitura fácil, impactante e emocionante. A cada página de seu livro é impossível não identificar alguma situação e refletir sobre preconceitos enraizados em nossa sociedade.

“Mulheres” começou nas redes sociais, e foi assim que as ilustrações da mineira de 29 anos foram se espalhando por aí cheias de lições incríveis – até chegar à versão impressa. O Clarices e Marias conversou com a Carol sobre seu primeiro livro, feminismo e a importância da representatividade nas artes. O resultado dessa conversa – lindona, tá? – você lê aqui:

Clarices e Marias: “Mulheres” surgiu de uma meta pessoal de criar uma ilustração por dia. Falar sobre estar histórias que encontramos no livro já fazia parte desta proposta também ou de repente aconteceu? Como você chegou a contar histórias de mulheres que desafiam o machismo em nossa sociedade?

Carol Rossetti: De repente aconteceu. Tudo nesse projeto foi “de repente aconteceu”. Eu vinha lendo sobre feminismo há um tempo e estava com várias questões na cabeça. Eu fiz as primeiras ilustrações baseadas em vivências de pessoas próximas a mim, mas, com o tempo, as pessoas que acompanhavam meu trabalho começaram a dividir comigo suas histórias e suas vivências, me dando ideias e sugestões. E foi aí que o projeto foi além e passou a contemplar uma variedade muito maior de mulheres. Se antes eram pessoas que eu conhecia e que, portanto, viviam em um contexto semelhante ao meu, quando mulheres do mundo todo me enviaram relatos eu pude sair completamente da minha zona de conforto, rever meus privilégios, aprender muito com o projeto e contar histórias muito mais diversas e interseccionais.

 

CM: Você se declara abertamente feminista e defende a importância da interseccionalidade, que é, brevemente falando, o feminismo que considera todas as identidades sociais e sistemas relacionados de opressão, dominação e/ou discriminação. Como foi para você incluir tantas mulheres, com as mais variadas personalidades, sexualidades, origens e crenças neste trabalho?

CR: Foi de um aprendizado imenso e uma experiência única. Foi um momento muito caótico na minha vida, mas também muito incrível.

 

10988334_763977083721837_2431337469473359764_nCM: Vamos falar de feminismo, que – sempre é bom lembrar – é o movimento que defende que todos os gêneros são iguais e merecem direitos e oportunidades equivalentes? Como você chegou a ele?

CR: Eu não nasci feminista. Houve um processo longo de desconstrução e revisão de conceitos, um processo que, na verdade, nunca acaba. Todos os dias eu aprendo algo novo e revejo ideias antigas. Mas eu comecei através de conversas com amigas na faculdade e de blogs feministas que eu comecei a seguir no Tumblr. Eu ouvi muito o que estavam dizendo antes de começar a usar minha própria voz (ou meu próprio traço) para contribuir de forma mais ativa com o movimento.

 

CM: Seu livro é escrito por uma mulher, se chama “Mulheres” e apresenta histórias de mulheres. Você acredita que ele também possa dialogar com os homens? O que você diria a um possível leitor de sua obra?

CR: Claro. E dialoga com muitos homens! Já estive em contato com vários homens que me agradeceram pelo meu trabalho, que também me contaram suas vivências e se identificaram com as personagens. Acho isso ótimo. Cada ilustração traz uma história e uma personagem. Mulheres são acostumadas a se identificar com personagens masculinos desde sempre. Um protagonista masculino nunca impediu mulher nenhuma de ler e adorar Harry Potter, por exemplo, mas muitos homens e meninos não se permitiram sequer assistir filmes de princesas da Disney porque isso seria “coisa de menina” – e, como tal, algo ruim. Ou, na melhor das hipóteses, algo que simplesmente não era para ele. Eu acho importante encorajar homens a se identificar com personagens femininas, porque são personagens tão humanas quanto eles. Não podemos recusar uma forma de fomentar a empatia. Então eu convido homens a ler, se envolver, desenvolver empatia, conhecer algumas vivências que eles não têm e se identificar com algumas que certamente eles têm também.

 

CM: De uma forma impactante sua obra chega ao público que, através das histórias apresentadas, repensa seus conceitos e atitudes, celebrando, como você mesma disse no início do livro, “a diversidade do ser humano”. Como artista, você acredita que a arte contribui para a luta por um mundo melhor? Qual é seu propósito na arte?

CR: Com certeza, acredito muito nisso. A arte pode ser apenas entretenimento, apenas expressão, apenas ativismo, ou pode ser tudo isso junto. E tudo bem, tem espaço para milhões de formas de fazer arte. Eu não acredito que eu tenha bem um propósito. Eu gosto de desenhar, adoro contar histórias, gosto de quadrinhos, de pintar com aquarela. E meu propósito é totalmente egoísta: faço isso porque me faz feliz. Existem causa nas quais acredito, e sei que posso lutar por elas fazendo o que eu amo fazer. Às vezes meu trabalho será ativista, às vezes não – ou, pelo menos, não de uma forma explícita. Em qualquer trabalho, pretendo trabalhar a questão da representatividade, criando personagens diversos e complexos. Isso também é feminismo, ainda que não seja panfletário.

 

Deixe seu comentário pra gente!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s