De 1985 para 2017: como “O conto da aia” continua atual e assustador 32 anos depois

Trinta e dois anos separam a publicação de “O conto da aia”, da autora canadense Margaret Atwood, de sua popularidade. Nos últimos meses, com a estreia de uma série homônima produzida pela Hulu baseada neste livro e com a reedição do título aqui no Brasil pela Rocco, muito se falou sobre essa história. Mas o que mais se discutiu sobre esse ressurgimento foi: por que só agora ela está tão popular?

Imagine que você viva exatamente como vive agora: faz tudo o que deseja, tem liberdade financeira, relaciona-se com quem escolhe se relacionar. Imagine, então, que há um golpe e que, de repente, todas as liberdade individuais são cortadas pelo governo para que, apenas até que tudo se restabeleça, ele tenha o controle do que acontece com as pessoas em seu território. Imagine, então, que essas liberdades perdidas, como já sabemos bem, nunca voltarão. É uma situação terrível e, diga-se de passagem, conhecemos essa história.

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Vestimenta típica das Aias (Imagem de divulgação da série homônina produzida pela Hulu)

O que diferencia a história de “O conto da aia” desta situação hipotética é que, na distopia de Atwood, as principais prejudicadas são as mulheres. Neste livro vamos conhecer a história de uma “aia”. Aia não é um nome, mas uma categoria de mulheres que ainda são férteis e serão responsáveis por colaborar para o aumento da natalidade desta sociedade. Enquanto estão engravidando e dando à luz, servem como aias; caso não engravidem, mudarão de categoria. Nessa sociedade, além das aias, existem as Marthas e as Não-Mulheres, sendo as primeiras responsáveis por servir os homens que trabalham para o governo e as não-mulheres, as que não reproduzem ou nunca reproduziram e vivem à margem da sociedade em aldeias e condições de vida ainda piores.

“Existe mais de um tipo de liberdade, dizia Tia Lydia. Liberdade para, a faculdade de fazer ou não fazer qualquer coisa, e liberdade de, que significava estar livre de alguma coisa. Nos tempos de anarquia, era liberdade para. Agora a vocês está sendo concedida a liberdade de. Não a subestimem”.

Falando assim parece bem pouco provável que isso possa se assemelhar a alguma realidade, passada ou futura. E aí é que está a grande chave da popularidade atual desta história: Margaret não inventou nada e criou uma história baseando-se em situações, leis ou rituais que já existiram ou existem em algum lugar do mundo. Uma mulher não tem permissão para ter contas bancárias ou dinheiro próprio; uma mulher não pode trabalhar e deve dedicar-se à sua casa e à reprodução; uma mulher que não engravida, não dá à luz a outro ser, não pode ser considerada uma mulher plena e realizada; uma mulher não pode vestir-se de forma sedutora; uma mulher deve aceitar que os homens são melhores, mais fortes, e tem seus instintos, de forma que se uma mulher é traída, estuprada ou sofre maus tratos, a culpa é dela. Essas sentenças podem parecer absurdas, mas pense: você já ouviu algo parecido? Aposto que sim.

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Margaret Atwood,  aos 77 anos, publicou mais de 15 romances.

Margaret Atwood publicou essa distopia, uma ficção que apresenta um lugar ou estado imaginário em que as pessoas vivem em condições de extrema opressão, há 32 anos e ela ainda assusta. É assustador ler um livro que apresenta um estado totalitário e teocrático que oprime as mulheres e perceber que, de uma maneira ou de outra, ele está apresentando situações que acontecem nos dias atuais em um estado que se pretende laico e livre.

Por favor, leiam essas passagens:

“Ele não deveria falar comigo. É claro que alguns deles tentarão, dizia Tia Lydia. Toda carne é fraca. Toda carne é erva, eu a corrigi em minha cabeça. Eles não conseguem deixar de fazê-lo, dizia ela, Deus os fez assim, mas Ele não as fez assim. Ele as fez diferentes. Cabe a vocês impor os limites”.

“É Janine, contando como foi currada por uma gangue aos catorze anos e fez um aborto. Ela contou a mesma história na semana passada. (…) Mas de quem foi a culpa?, diz Tia Helena, levantando um dedo roliço. Dela, foi dela, foi dela, foi dela, entoamos em uníssono. Quem os seduziu? Tia Helena sorri radiante, satisfeita conosco. Ela seduziu. Ela seduziu. Ela seduziu. Por que Deus permitiu que uma coisa tão horrível acontecesse? Para lhe ensinar uma lição. Para lhe ensinar uma lição. Para lhe ensinar uma lição. Na semana passada Janine explodiu em lágrimas. Tia Helena a fez ajoelhar na frente da turma, com as mãos atrás das costas, onde todas podíamos vê-la, o rosto vermelho e o nariz pingando. (…) Aquilo foi na semana passada. Nesta semana Janine não espera que comecemos com a zombarias. Foi minha culpa, diz ela. Foi minha própria culpa. Eu os incitei, os seduzi. Mereci o sofrimento. Muito bem Janine, diz Tia Lydia. Você é um exemplo”.

Como é perceptível, em “O conto da aia” somos apresentados a situações que, de maneiras menos extremas, nos deparamos em nossa realidade. A passagem acima, por exemplo, pode ser comparada com algo recorrente: não se faz tal ritual com uma mulher que tenha passado por tamanha violência, mas muitos questionam os motivos para que ela estivesse em tal lugar naquela hora e qual roupa vestia. Essas passagens, inevitavelmente, nos fazem pensar na situação em que vivem as mulheres nos dias de hoje e em como a sociedade não melhorou. Ainda nos fazem temer que a situação nunca melhore.

“Demos-lhes mais do que tiramos, disse o comandante. Pense nas dificuldades que tinham antes. Não se lembra dos bares de solteiros, a indignidade dos encontros às cegas no colégio? O mercado da carne. Não se lembra do terrível abismo entre as que podiam conseguir um homem com facilidade e as que não podiam? Algumas delas ficavam desesperadas, passavam fome para ficar magras, enchiam os seios de silicone mandavam cortar pedaços do nariz. Pense na infelicidade humana”.

Margaret Atwood disse em inúmeras entrevistas que rejeita a classificação de seu livro como uma ficção científica feminista e talvez ela tenha razão, pois nos apresenta algo muito maior do que isso. Nos apresenta uma ficção real, visceral, assustadora: uma história de pessoas que pretendiam consertar muitos aspectos de uma sociedade doente e que acabaram transformando-a em algo ainda pior, cega por ideologias e opressora. Embora não traga esperanças, “O conto da aia” nos faz refletir sobre nossos dias e desejar que, um dia, a opressão contra as mulheres seja apenas uma situação distópica de uma ficção científica. 

“Como todos os historiadores sabem, o passado é uma enorme escuridão, e repleto de ecos. Vozes podem nos alcançar a partir de lá; mas o que dizem é imbuído da obscuridade da matriz da qual elas vêm; e, por mais que tentemos, nem sempre podemos decifrá-la precisamente à luz mais clara de nosso tempo”. Assim termina o livro e assim esperamos que falem de nossa sociedade daqui a 100 anos. Por enquanto, nos resta refletir e lutar para que isso aconteça. 

 

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