Porque você deve começar a assistir “Juana Inês”, disponível na Netflix, hoje mesmo

Durante toda sua vida, Juana Inés foi responsável por agitar os ânimos da corte do México, a surgida Nova Espanha, e é muito provável que você nunca tenha ouvido falar sobre ela – mesmo que se interesse pela história da América Latina. Nascida em Neplanta, foi nomeada como Juana Inés de Asbaje y Ramírez de Santillana. Com este nome poderia ter se tornado, sem grandes problemas, a intelectual, escritora e poetisa que tanto desejava. No entanto, ficou conhecida como Juana Inés de la Cruz, nome que ela mesma escolheu ao entrar para a Ordem de São Jerônimo, tornando-se freira.

Essas atribuições citadas (intelectual, escritora, poetisa e freira), apesar de juntas neste texto, não poderiam, de forma alguma, ser atribuídas a uma única mulher no século XVII. Se já era difícil ser uma freira em tal período, imagine ser uma freira que contestava os valores da sociedade e da igreja e desejava ser tão livre quanto um homem. Pode-se imaginar que, além de tumultuar a vida da corte, Juana Inés também criou grandes problemas para a Santa Inquisição.

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A atriz Arantza Ruiz como Juana Inés. (Foto: Divulgação)

Uma vida interessante como essa, claro, em algum momento da história seria retratada e homenageada, o que fez recentemente a Netflix ao disponibilizar a minissérie de sete capítulos, produzida pelo Canal Once do México, que retrata a vida desta mulher, desde sua chegada a corte até sua morte em clausura. Nesta época atual em que tentamos resgatar a vida de mulheres que lutaram pela igualdade de gênero, seria natural que a minissérie “Juana Inês” tivesse estreado com grande repercussão e divulgação, mas não foi o que aconteceu, infelizmente.

 

Os capítulos dedicados ao retrato da vida de Juana Inês, considerada a primeira feminista da América e a mente mais brilhante de seu tempo, mostram todos os desafios e humilhações que ela passou para começar a revolucionar o que significava “ser mulher” no período colonial. Que contrassenso resgatar a memória desta mulher e apresentar uma obra em sua homenagem, mas que acaba caindo no esquecimento!

De origem indígena e espanhola, Juana não possuía herança alguma e precisou submeter-se à vida na corte espanhola, que estava nas terras que se tornariam o México, para que pudesse tentar firmar um bom casamento. Sendo assim, gastava seus dias sendo agradável e entretendo os vice-reis e a todos da corte com seus poemas e sua inteligência. Desde o início de sua vida ali, desafiava as autoridades eclesiásticas com seu comportamento: sua produção literária e a vontade de estudar os clássicos era totalmente inaceitável para uma mulher de sua época e os líderes religiosos fizeram de tudo para detê-la, uma vez que a igreja deveria controlar a vida das mulheres dentro e fora de suas instituições.

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Juana Inés de Asbaje y Ramírez de Santillana, conhecida como Juana Inés de la Cruz, viveu entre 1651 e 1695. (Imagem: Reprodução)

Não podendo encontrar um marido por ser uma filha bastarda de origem indígena, Juana Inês decide ter uma vida religiosa e acreditava que, ao tornar-se freira, teria tempo livre para estudar e dedicar-se às artes. Conseguiu o que queria, mas sem ter tempo livre e precisando empregar muitos esforços para ter liberdade de fazer o que desejava. As autoridades da igreja moveram céus e terras para que ela se mantivesse absolutamente ocupada com questões do convento, acreditando que assim sua mente não se preocuparia com bobagens. “Mente vazia, oficina do diabo, Juana Inês”, ouve-se ouvir repetidas vezes durante a minissérie.

Juana Inés, como vocês podem imaginar, venceu todos os obstáculos impostos, agradou a todos com suas peças e poemas, atraiu a inveja dos homens de sua época e, inclusive, publicou opiniões sobre assuntos da Teologia, algo inaceitável – e que quase a levou para a fogueira da Santa Inquisição – para uma freira. Além de tudo isso, Juana Inés, sendo freira com votos de castidade, chocou ao ter um romance descoberto – com uma mulher!

Se vocês querem saber como ela conseguiu realizar todos esses feitos, dedicando sua vida às artes, ao amor e a Deus, sugiro que façam uma rápida maratona dessa série incrível que apresenta uma mente tão fascinante como esta. É hora de prestigiarmos as grandes mulheres que, desde há muito, lutaram para que os padrões sociais que eram (eram?) impostos ao gênero feminino caíssem por terra. Uma homenagem a Juana Inês, a primeira feminista da América!

 

 

“Hombres necios que acusáis
a la mujer sin razón,
sin ver que sois la ocasión
de lo mismo que culpáis.

Si con ansia sin igual
solicitáis su desdén,
¿por qué queréis que obren bien
si las incitáis al mal?

Combatís su resistencia,
y luego con gravedad
decís que fue liviandad
lo que hizo la diligencia.

Bien con muchas armas fundo
que lidia vuestra arrogancia,
pues en promesa e instancia
juntáis diablo, carne y mundo.”

Juana Inês de la Cruz

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