“Mulher-Maravilha” e meus conflitos internos: admiração e decepção em proporções equivalentes

Ao subir os créditos de “Mulher-Maravilha” suspirei. Tirei os óculos 3D, esfreguei os olhos e, pressionando o alto do nariz, pensei em toda a expectativa que carregava até aquele momento. Enquanto assistia ao longa-metragem baseado na personagem da DC Comics, distribuído pela Warner Bros. Pictures, fui sentindo cada uma das minhas expectativas serem jogadas ao chão. E aqui, antes de falar sobre o filme em si, abro um parênteses para falar sobre as expectativas depositadas por todos nós neste filme.

A Mulher-Maravilha é uma personagem muito amada. Todos têm, independente de qual versão você se apegue mais, uma imagem dessa figura feminina forte, guerreira, construída do barro pela rainha das amazonas ou sendo filha de Zeus; ela é a definição perfeita da expressão “mulherão da porra” que usamos. Até aí, tudo bem. Se não fosse por este dado: desde sua primeira aparição nos quadrinhos, exatamente 76 anos atrás, a “Mulher-Maravilha” nunca havia sido representada no cinema em um filme exclusivamente seu. Retorne ao começo do parágrafo e ligue as informações: considerando tudo o que a Mulher-Maravilha representa, principalmente em um mundo onde cada vez mais se fala sobre a importância da representatividade nas artes, surgir o primeiro filme desta heroína é motivo suficiente para que as expectativas fossem imensas. Todos queríamos ver uma mulher sensacional em um filme sensacional.

Gal-Gadot_ampliacionO problema dessa falta de representatividade se estende para atrás das câmeras também: este filme sobre uma heroína, o primeiro da história da personagem Mulher-Maravilha, também foi dirigido por uma mulher, Patty Jenkins, o que é outro fato ainda mais raro. Na indústria do cinema e principalmente em Hollywood ter uma mulher por trás das câmeras em um filme cujo orçamento foi mais de US$ 100 milhões é algo memorável. Por essas expectativas todas, Patty Jenkins se tornou a diretora com a melhor estreia nos Estados Unidos arrecadando US$ 100,5 milhões logo no primeiro fim de semana de exibição do filme. “Mulher- Maravilha” superou de cara uma das primeiras produções de origem da Marvel, “Homem de Ferro”, que em 2008 arrecadou US$ 98,6 milhões.

Digo tudo isso para defender que: Patty Jenkins não tinha a chance de errar. A ela foi dada a responsabilidade de representar uma heroína dignamente e ainda mostrar que, como diretora, ela faria tão bem quanto qualquer homem ali. Como uma das poucas diretoras dos filmes que ganham essa proporção (de produção, de marketing, de elenco), ela deveria fazer tudo bem feito, agradar a todos e mostrar que toda mulher consegue fazer cinema. Por essa falta de representatividade, exigimos tudo dela, que fosse boa em todos os aspectos e aqui assumo a mea culpa por depositar minhas enormes expectativas em uma única mulher. Como admiradora da Mulher-Maravilha, como uma mulher que valoriza e torce pelo trabalho de outras mulheres, digo que ela fez o que deveria fazer, apresentou um filme interessante, caricato como todos os filmes de super-heróis, cheio de explosões e efeitos especiais, mas fez mais do mesmo. Ela não tinha obrigação de acertar em tudo, mas esperávamos que ela não reproduzisse o que homens já fazem aos montes nos filmes de super-heróis.

Resumidamente conto a história do filme para quem não se lembra ou não assistiu (se você não quer spoilers, pare por aqui, vá assistir ao filme no cinema para prestigiar essa produção e volte ao texto): Diana, nossa querida Mulher-Maravilha, nasceu e cresceu cercada apenas das mais lindas amazonas que você pode imaginar. Zeus criou uma ilha paradisíaca e perfeita para que elas vivessem entre si, sendo felizes, lindas e fortes. Diana, nascida de uma relação entre Zeus e a rainha das amazonas, foi criada nesse ambiente e carregava consigo a sina de ser a única que conseguiria matar Ares, o filho rebelde de Zeus que tinha inveja dos homens e causava a discórdia entre eles para que lutassem entre si e mostrassem a Zeus como sua criação era imperfeita. Quando Diana se torna mulher e começa a lidar com seus poderes, um espião inglês que estava fugindo do exército alemão cai nessa ilha e é salvo por ela. As amazonas, então, ficam sabendo sobre a Primeira Guerra Mundial e decidem que não vão interferir. Diana, sendo a Mulher-Maravilha, decide ir com Steve, o homem, para o front, onde acredita que encontrará Ares para matá-lo e dar fim ao sofrimento do mundo.

cde4c9d0a997d6cb906965b64699bf80.jpgDesde o momento em que sai da ilha, Diana é tipicamente uma pessoa inocente. A atriz, Gal Gadot, até então só conhecida por seu papel na franquia “Velozes e furiosos”, desempenha um papel interessante e sabe explorar bem suas expressões e movimentos (curiosidade: a atriz de 32 anos já foi Miss Israel e serviu por no exército do país). Admirei as sutis críticas aos padrões de nossa sociedade feitas pelo filme, como nos deixarmos guiar por um aparelho tão pequeno como um relógio, por nos preocuparmos em esconder nossos corpos ou vestirmos roupas desconfortáveis. Até a metade do filme, o sarcasmo e o humor tornam a narrativa bem leve – até que eles chegam na frente de batalha. O filme adquire a partir daí toda a dramaticidade que o assunto provoca e, ao encaminhar-se para o final, perde a consistência.

Ao longo da jornada vemos Diana assumir seu papel de Mulher-Maravilha, porque até então ela vivia em uma ilha com mulheres mais fortes e mais hábeis e não fazia ideia de que possuia algum poder como semi-deusa. Os momentos de descoberta de poder são incríveis – até que chega a cena em que ela se transforma oficialmente na Mulher-Maravilha voadora e poderosa que conhecemos. Volto uns instantes no longa para justificar minha crítica: há um acordo de paz sendo assinado entre a Alemanha e a Inglaterra que colocará fim a guerra, mas alguns superiores do exército alemão não querem que isso aconteça e programam um ataque aéreo a Londres. Enquanto Diana está preocupada em matar Ares, que trará fim à discórdia que ele implanta no coração dos homens, Steve, seu par romântico no filme e nos quadrinhos, decide que irá impedir o ataque a Londres e, logo, permitir que a guerra realmente chegue ao fim.

Steve rouba o avião que contém todas as bombas de gás e decola longe o bastante para que possa dar um tiro no arsenal e explodir o avião. Ele, como piloto, obviamente, é explodido junto. Temos um sacrifício, um belíssimo ato heróico – que, ao meu ver, é bem desnecessária para a narrativa. Reparem que no filme da Mulher-Maravilha, personagem que desde o começo fala que vai terminar a Primeira Guerra, quem se torna o herói é Steve. Continuando: enquanto ele se explode no céu, Diana está apanhando terrívelmente de Ares, uma vez que sua força ainda não é conhecida e controlada. Ao ver, no entanto, seu primeiro amor morrer, ela fica possessa. A Mulher-Maravilha que eu queria ver, então, aparece. Ela assume sua força e consegue matar Ares. Fim.

Vamos lá: a Mulher-Maravilha deixou para trás sua família e tudo o que conhecia para salvar a guerra ao lado de um homem que caiu do céu. A saudade de sua família e a dor que sente ao perceber que sua mãe, a rainha das amazonas, estava certa ao avisá-la que os homens já estavão corrompidos e que não a mereciam não é motivo bastante para que ela fique possessa e se torne forte e destruidora. Sabemos que a raiva é um elemento bem utilizado nas histórias de super-heróis, isso sempre dá a eles a motivação e a força necessárias para matem quem precisam. Entretanto, eu não esperava que neste filme (de uma heroína criado por uma mulher, repito) a raiva necessária para essa transformação saíria da morte de seu par romântico.

Ok, Steve é o par romântico da Mulher-Maravilha nos quadrinhos. Mas nos quadrinhos eles também ficam juntos, se casam e são felizes – o que não acontece no filme. Então esse argumento não é válido. A meu ver, a opção de ser fiel ao quadrinho apenas até essa parte foi bem falha: Patty Jenkins poderia ter escolhido ser fiel por inteiro ou não ser de modo algum. Se houvesse esse par romântico no filme, ela adquirisse seu poder total com outra motivação e eles ficassem juntos no final, tudo bem. Se não houvesse um par romântico e ele morresse e ela ficasse triste e raivosa porque perdeu seu primeiro e único amigo homem, tudo bem também. Mas incluir um par romântico e matá-lo no final apenas para que a dor que a Mulher-Maravilha sente como forma a justificar o poder que assume não foi legal.

É inegável comparar essa heroína com o Super Homem: ele não precisa que a Lois Lane morra para que ele fique forte e consiga voar e matar seus inimigos, não é? Ele é sensacional assim por si só e ainda usa seus poderes para ganhar a admiração da simples mortal que Lois é. Não seria adequado dar o mesmo andamento à história da Mulher-Maravilha? 

wonder-woman2Outro ponto, e prometo ser o último, que me incomodou foi que não ficamos sabendo o que acontece com as amazonas no final. Antes de ir embora sua mãe diz que Diana é sua maior tristeza e pergunta se ela sabe que, indo à guerra, ela pode nunca mais voltar. Ela diz que sabe disso, se despede e vai embora. Eu jurava que ela retornaria para mostrar a mãe que ela conseguiu. (Já pensou que lindo seria se a intenção de ganhar a admiração de sua mãe, assim como ela se preocupava com isso quando criança, fosse o bastante para que ela tomasse conhecimento de todo o seu poder e que depois ela retornasse a ilha, pelo menos para se despedir de vez?). As amazonas são personagens secundárias incríveis e poderiam ser bem mais exploradas – assim como todos os personagens secundários, incluindo os vilões, que embora sejam bem representados pelos atores, me parecem mal apresentados na história.

Com muita decepção em mim, digo que Mulher-Maravilha é um bom filme, que é bem construído e que merece todo o prestígio que está tendo e ainda terá. Digo também que é importante irmos aos cinemas para assistir ao filme para que os números comprovem que, sim, nós todos estamos interessados em conhecer mais heroínas. Quem sabe, com mais filmes de heroínas e com cada vez mais mulheres dirigindo, elas possam se despreender dessa necessidade de agradar a todos, de reproduzir o que já vem sendo feito, de mostrar o que vende, como fez Patty Jenkins. Ela tem seu mérito, com certeza, mas todos nós queremos ver nas telonas cada vez mais personagens incríveis por si só, sem a necessidade de pares românticos, sem reprodução do que já é feito. Aguardo ansiosa por esse dia e, por enquanto, lamento que Jenkins tenha produzido uma obra cheia de efeitos especiais que exaltam a heroína, mas que ainda assim fazem a maioria das mulheres sair do cinema com mais vontade de ser uma amazona do que a própria mulher…

 

 

2 comentários sobre ““Mulher-Maravilha” e meus conflitos internos: admiração e decepção em proporções equivalentes

  1. Lais disse:

    Como você disse, eu gostei do filme até a primeira parte, quando mostra mulheres incríveis e fortes na ilha das amazonas, no entanto, na segunda parte o filme sofre com dezenas de clichês.

    Eu sempre achei esquisito nos filmes as mulheres se apaixonarem tão rápido; cansa-me sempre que o único motivo de uma mulher seja o amor; cansa-me o excesso de bem vs. mal, especialmente numa guerra em que existem problemas muito mais profundos que esse, que não dá para se ver o mundo deste modo, preto ou branco. Além do mais, eu sei que o filme também é para crianças, mas uma guerra não ter sangue nem sofrimento direito não me convence.

    Por fim, queria ter visto uma mulher forte porque ela é forte, foi treinada para isso, mas vale a pena assistir o filme e dar créditos a uma diretora, que teve uma grande responsabilidade 🙂

    Curtido por 1 pessoa

    • Michelle Lopes disse:

      Sim, com certeza! É isso: vale a pena prestigiar o trabalho dessas mulheres, mas ainda não é o que nos representa e o que queremos ver de uma heroína como a Mulher-Maravilha.

      Curtir

Deixe seu comentário pra gente!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s