O rei Arthur de Guy Ritchie e seus contrassensos narrativos

Hoje o Clarices e Marias ganhou uma nova categoria: Opiniões. Essa nova criação pede, portanto, uma breve explicação de sua razão em estar aqui. Desde que dei vida a esse projeto, apresento a vocês livros, filmes e todo o tipo de produção cultural que realmente admiro. Como parte da linha editorial, decidi nunca apresentar um livro ou qualquer produção que eu não tenha gostado, pois não é minha intenção falar mal de algo criado corajosamente por uma mulher. A mim soaria como um desserviço. 

No entanto, com frequência assisto, leio ou tenho contato com produções culturais, em sua maioria produzidas por homens, que me intrigam e promovem em mim reflexões sobre a presença da mulher em tais criações com as quais não posso lidar sozinha. Como Clarices e Marias, além de não falar mal de ninguém, também não fala sobre produções criadas por homens, tenho que matutar sozinha por dias e dias e encher os ouvidos de todos aqueles que me rodeiam.

Neste último fim de semana, entretanto, uma profunda reflexão se apossou de meus pensamentos e não houve conversação alguma que me aquietasse: preciso ouvir mais opiniões e falar ainda mais sobre isso. Pensei, assim, em criar uma nova categoria aqui no site, uma tentativa de criar um espaço para apresentar reflexões sobre a figura da mulher em produções que li, vi ou ouvi (e não gostei). É uma forma de estreitar laços com vocês, leitores, e de expurgar minhas inquietações. Que seja frutífero esse espaço de reflexão!

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Então, vamos lá! Como disse, há dias tenho pensado em uma produção cinematográfica que não tem nada de participação feminina: é produzida por um homem, estrelada por um homem e que conta a história, claro, da lenda de um homem. Por “lenda”, vocês já sabem que falo de Rei Arthur: a lenda da espada, filme de Guy Ritchie, cujo ator principal é Charlie Hunnan. Preparados para minhas divagações?

O filme apresenta o combo de sucesso para uma história: um homem bonito, órfão desde muito pequeno, cresce com todas as dificuldades de uma infância pobre, até que descobre que vem de uma família nobre e que seus pais foram mortos por um tio bastardo que queria tomar o poder de seu pai e tornar-se rei. (Esqueci de avisar que esse texto vai ser uma enxurrada de spoilers!) Pois bem. Então, esse homem passa a ser a última esperança de um povo sofrido e, como vingança, passa por todas as fases da jornada de um herói para chegar ao momento de matar o tio, recuperar a paz de seu povo e tornar-se rei legítimo, vivendo a glória. A história é conhecida e a fórmula de sucesso também.

Charlie-Hunnam-King-Arthur-01-1024x645Para continuar, devo dizer uma coisa: esperei muito por esse filme. É obra de um diretor que admiro, o mesmo de Sherlock Homes, e o ator principal está nas minhas graças. Então, vejam bem, realmente quis gostar muito desse filme, mas tenho ressalvas, essas que têm me perturbado, que fazem apenas com que eu goste de forma razoavél da produção. Seria muito mais fácil ter assistido ao filme como puro entretenimento, mas depois de uma certa fase da vida, toda e qualquer criação será vista com critérios e julgamentos.

Primeiro defendo, porque falar somente mal seria injustiça com o filme: é, sim, um filme benfeito. A atuação é boa e se você assistiu outros filmes do ator principal ou acompanhou a série Sons of Anarchy, trabalho de mais notoriedade de Charlie Hunnan, sabe que ele melhorou – e muito – sua atuação. A trilha sonora é fantástica e os efeitos audiovisuais são bons. A direção de Guy Ritchie continua bem característica, cômica e legal. Ele, por sinal, não tentou criar nenhum casal romântico na história, o que, a meu ver, é digno de nota. Mais digno de nota, e agora nós vamos começar a entrar em minhas aflições, é que a guia espiritual dessa jornada do futuro rei é uma mulher. Na história, Merlin, o mago, não aparece e sua representante – e única sobrevivente de seu clã de magos – é uma mulher. Mais do que uma guia espiritual que dá conselhos para facilitar a jornada de Arthur, ela coloca provas em seu caminho para fortalecê-lo e o ajuda a controlar seu poder. A maga, como sua personagem é chamada, me parece o arquétipo da mulher selvagem, sendo a personificação daquilo o que é natural e está totalmente conectada com as forças da natureza, manipulando seres e transforma-se em animais de acordo com a necessidade do momento.

king-arthur-legend-of-the-sword-kral-arthur-kilic-efsanesi-484A figura tão importante de Merlin é substituída por uma mulher. É um grande avanço, não é mesmo? Nem tanto. Guy Ritchie realmente tentou dar notoriedade à figura da mulher, mesmo que tenha saído um pouco do contexto em alguns momentos. Por exemplo: em uma época, século VI especificamente, em que a mulher não tinha grande participação, há uma passagem em que o líder da tropa real irrita-se com Arthur porque ele atrasou seu retorno a casa e justo naquele dia ele deveria fazer o jantar para sua mulher – e ela ficaria muito brava por isso. O diálogo torna a cena engraçadinha (diminutivo), mas fora de contexto – principalmente se considerarmos que o líder-cozinheiro pouco antes havia matado todos no vilarejo onde Arthur se refugiara e tem o tal diálogo em meio a vários corpos mortos. Ele fala isso, vai embora e ninguém faz nada.

Estranho, mas isso não foi o que mais me incomodou. Retorno um pouco ao início do filme: o tio de Arthur mata os pais do futuro rei na mesma noite em que mata sua própria esposa como um sacrifício para que seu poder aumente e também porque ela, sendo amiga da rainha, não aceitaria tal traição. Até aí, é uma morte que “faz sentido” para a história. Voltando ao fim do filme: quando Arthur está controlando a espada e retorna ao castelo em busca de seu tio, o rei ilegítimo vai novamente à procura de criaturas míticas e faz outra oferenda, sob a promessa de que seu poder se tornaria indestrutível, e mata sua única filha. (Como eu defendi esse filme no começo, pai amado?)

Quero deixar claro que, sob hipótese alguma, eu defendi a primeira morte. É terrível e algo assim só banaliza a violência, mas isso acontece na maioria dos filmes hollywoodianos, né? Mas vejam bem: nessa segunda vez, ele mata sua filha exatamente da mesma maneira que matou sua esposa. É uma reprodução banal, uma tentativa de criar uma cena impactante do pai matando a filha e “sofrendo” pelo sacrifício. E não me convence. Em determinado momento da história ele diz: “ó céus, como eu gostaria de ter tido um filho”, ao ver um menininho defendendo seu pai. Ou seja, para ele sua filha pouco serve – e a figura dela não faz absolutamente nada no filme todo, apenas passa alguns vezes pela câmera sendo linda e vivendo a vida do reino.

Falei da morte que seria responsável pelo poder absoluto, né? Pois é, o feitiço não funciona. O rei morre, como vocês já deviam imaginar, e Arthur se torna rei (o nome do filme é Rei Arthur, então não me acusem de ter dado mais um spoiler aqui). Além da cena ter sido forçosamente construída para impactar o espectador, o feitiço não funciona. Entendem minha irritação? Considerando que houve a tentativa de enaltecer a figura da mulher com a maga, essa segunda morte é um contrassenso na narrativa: ao mesmo tempo que a mulher é forte, controladora da natureza, substituta de Merlin, o mago dos magos, as mulheres são também apenas alvos fáceis, objetos de decoração e de sacrifício. Não vez sentido pra mim.

1200Então vocês podem dizer: “Ah, Michelle, mas essa é só uma história e virgens são sacrificadas desde sempre nas lendas. Você está pensando só no politicamente correto. Por favor, pare de ser chata”. Concordo, mas em partes. Disse que entendo a primeira morte, pois o rei ilegítimo (#foraVortigern) não conseguiria apoio das antigas pessoas de sua família e deixou sua filha viva porque era apenas um bebê. No entanto, reproduzir a morte exatamente igual a primeira foi fraco. Um filmão desses e fracassam nos detalhes. Qualquer outra solução seria válida e não precisamos de muita criatividade para imaginar isso. Guy Ritchie, criativo e bom por si só, poderia ter espirrado e tido uma ideia melhor.

Como a opinião é minha (a chatice também), digo o que me agradaria: a morte de um filho como sacrifício. Pensem comigo: uma vez que o rei lastima não ter tido um e que um filho seria a única maneira de seu nome perpetuar por outros reinados, dar um filho como oferenda seria, de fato, um sacrifício. Sua filha já havia sido desvalorizada demais e não havia nenhum tipo de relação pai-filha, que justificasse ser esse um grande sacrifício para o rei. Entendem por que não faz sentido para mim que as coisas tenham sido colocadas dessa forma na história?

Para encerrar digo: se a história fosse de fato fiel a um acontecimento real, isso não teria me incomodado e não teria gasto tanto tempo pensando em como a narrativa poderia ter apresentado outras soluções. Mas como é possível que Rei Arthur tenha sido apenas uma lenda e que eu não encontrei nenhum vestígio dessas mortes injustificadas nas histórias sobre esse rei, deixo-me considerar estas más escolhas de Guy Ritchie: explora a imagem da violência e coloca mais uma vez figuras femininas sem propósito algum exceto existir de forma bela e para uso masculino.

Terminando esse texto percebo que não consigo defender esse filme. Vejo pontos positivos, mas se esses acontecimentos me incomodaram tanto, imagino que a narrativa também tenha outras falhas que incomodem. Como puro entretenimento, serve. Como a representação de uma lenda, não convence e ainda peca em pontos cruciais. Além disso, releia o que disse no começo: “um homem bonito, órfão desde muito pequeno, cresce com todas as dificuldades de uma infância pobre, até que descobre que vem de uma família nobre”, volta a sua terra natal e vive em glória para sempre. Se isso também te lembra outra história, você definitivamente entende minha aflição.

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