“Má feminista”: a coragem de Roxane Gay de declarar-se uma ativista desastrosa

“Eu estou falhando como mulher. Eu estou falhando como feminista. Tenho opiniões apaixonadas sobre igualdade de gênero, mas me preocupo em aceitar livremente o rótulo de ‘feminista'”. É assim que Roxane Gay, escritora, blogueira e professora americana inicia seu discurso no TED em 2015 (vídeo no fim desta resenha) meses depois de concluir seu livro “Bad Feminist”, traduzido e publicado no Brasil em 2016 sob o título “Má feminista: ensaios provocativos de uma ativista desastrosa”.

WhatsApp Image 2017-05-17 at 10.43.51O título logo indica que trata-se de um livro composto de ensaios, mas confesso que logo de cara comecei a ficar decepcionada com ele. (Nota da autora: Se você está lendo a resenha deste livro, significa que no fim das contas eu acabei gostando dele, porque aqui no Clarices e Marias apresento apenas livros que li e gostei e acho interessante indicar.) Disse que me decepcionei, mas me explico: pelo título conter “feminista”, esperava encontrar uma série de ensaios que abordassem as temáticas do movimento de um jeito descontraído – o que acontece, de fato, mas apenas do meio para o final da obra. Roxane Gay dividiu seus ensaios em cinco partes: “Eu”, “Gênero e sexualidade”, “Raça e entretenimento”, “Política, gênero e raça” e “De volta ao meu eu”. Todos, indiscutivelmente, são mais sobre a vida da própria autora, como um blog pessoal, do que sobre feminismo. Quando suas histórias e reflexões sobre livros ou notícias que leu esbarram no movimento é apenas de forma leve.

Um fato positivo deve ser reconhecido: Roxane Gay chamou a atenção do mundo com esta obra. Dona de fortes opiniões sobre gênero, teve coragem de apresentar-se como uma má feminista, uma mulher que defende a igualdade de gênero, mas que ainda está longe de tornar sua vida um exemplo de ativismo e coerência com seus ideais. “Aceito o rótulo de má feminista porque sou humana. Fico confusa. Não estou tentando ser um exemplo. Nem ser perfeita. Nem dizer que tenho todas as respostas. Nem dizer que estou certa. Apenas tento… tento apoiar aquilo em que acredito, no intuito de fazer algo de bom neste mundo; no intuito de fazer algum barulho com o que escrevo e, ao mesmo tempo, ser eu mesma: uma mulher que ama cor-de-rosa, gosta de ser bizarra e, às vezes, chacoalhar o esqueleto ao som de uma música que ela sabe – ela sabe – ser terrível para a reputação das mulheres; uma mulher que às vezes se finge de tonta com o homem que está consertando algo para ela, porque é tão mais fácil deixá-lo se sentir macho do que ficar em posição de superioridade moral. Sou má feminista porque não quero nunca ser coloca em um Pedestal Feminista. Dessas pessoas, espera-se que se comportem com perfeição. Mas, quando fazem merda, são criticadas. De modo geral, eu faço merda. Considere-me já como criticada”. 

Author Roxane Gay in Coleman hall on the campus of Eastern IllinRoxane Gay é gente como a gente. Com sua escrita descontraída e suas histórias de vida, acaba apresentando ao leitor muitos questionamentos sobre a cultura pop atual, fazendo com que o leitor também reflita sobre eles. Roxane analisa brevemente o seriado “Girls“, de Lena Dunham, e sua falta de protagonistas negros. No entanto, não faz desta sua grande crítica e ainda defende que este não é o primeiro nem será o último seriado a apresentar tal falta e que não deveria ser tão massacrado pelos críticos como tem sido, uma vez que quebrou tantos paradigmas na televisão americana. O leitor também é levado a pensar sobre a diferença das análises dos críticos literários quando se deparam com protagonistas chatos: se forem homens serão anti-heróis, mas se forem mulheres serão apenas personagens chatas consideradas falhas nas narrativas. 

Roxane, ao falar sobre a banalização da violência contra a mulher pela mídia, relembra casos com o de Chris Brown, Charlie Sheen, Roman Polanski, Sean Penn. (E se você não se lembra de algum desses episódios, te convido a colocar qualquer um desses nomes + “violência” no Google). Falando sobre sua rotina, a autora também comenta suas leituras, chegando até mesmo a discorrer sobre Judith Butler, uma das principais teóricas da questão contemporânea do feminismo, e sobre a sociedade que enraizou em sua cultura o estupro. “A maneira casual com que lidamos com o estupro pode começar e terminar com a televisão e com os filmes por meio dos quais somos inundados com imagens de violência sexual e doméstica. Você pode pensar em uma série dramática de televisão que não incorporou algum tipo de enredo envolvendo estupro?” (Pense em suas séries favoritas. É assustador!)

WhatsApp Image 2017-05-17 at 10.43.50Um dos meus ensaios favoritos desta obra chama-se “Como fazer amizade com outra mulher” e apresenta o conceito de sororidade, a união e amizade entre mulheres baseada na empatia e companheirismo, de uma forma muito interessante. Apesar de tratar de certa forme sobre o feminismo, muitos dos ensaios de “Má feminista” apresentam única e exclusivamente a visão de mundo de Roxane, suas frustrações e seus prazeres do cotidiano, o que tornou-se, para alguém como eu que estava buscando um livro sobre feminismo, um obstáculo para a apreciação da leitura em um primeiro momento. No fim das contas, a autora havia anunciado no título da obra que seriam ensaios sobre uma ativista desastrosa, né? Deveria ter imaginado. Embora o começo tenha sido difícil e eu considere alguns ensaios bem maçantes, outros são ensaios, como já disse, bem válidos e interessantes! Não imaginei que de um ensaio para outro estaria pensando no caso de Charlie Sheen, depois em Judith Butler e depois sobre como Katniss Everdeen, protagonista de Jogos Vorazes, nos representa. O trabalho de Roxane Gay nesta obra foi bom e cumpre seu propósito!

Com uma confissão parecida com a sua no início da palestra no TED, ela termina o livro “Má feminista”: “Sou imperfeita como mulher. Sou imperfeita como feminista. Aceitar livremente o rótulo de feminista não seria justo para com as boas feministas. Se sou, de fato, uma feminista, sou do tipo bem desagradável. Um profusão de contradições. Tenho feito um feminismo incorreto de diversas maneiras, pelo menos de acordo com o modo como minha percepção do feminismo tem sido distorcida por ser mulher. (…) Na verdade, porém, sou uma mulher de trinta e poucos anos lutando para aceitar a si mesma e sua avaliação de credibilidade. Por muito tempo, disse a mim mesma que eu não era essa mulher – completamente humana e imperfeita. Fazia hora extra para ser qualquer coisa, menos essa mulher, e foi exaustivo, insustentável e ainda mais difícil do que simplesmente assumir quem sou”. 

Neste livro, ela assume bem quem é e transmite seu recado. Roxane, como você mesma diz, é preferível ser uma má feminista a não ser feminista de modo algum. 

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