O universo feminino pela obra de Andréa Tolaini: afinco, paixão e visceralidade

Essa é mais uma história de libertação e superação. É mais uma história de alguém que largou tudo para fazer o que realmente gosta – e fez bonito. É mais uma história para você se inspirar, apreciar e acompanhar. É mais uma história, mas a protagonista não é só mais uma pessoa, é uma mulher livre.

AndreaTolainiAndréa Toalini abandonou sua carreira publicitária para se dedicar às Artes Visuais. Em sua obra chamam a atenção suas criações que representam o universo feminino. São produções sensíveis e delicadas, por vezes brutais, que apresentam uma impactante verdade sobre ser mulher. “Eu me sinto livre. Me sinto derrubando os muros que foram impostos a mim e a outras mulheres. Me sinto lutando pelo que é meu por direito, pelo meu espaço no mundo e pelo reconhecimento que toda mulher deve ter. Eu luto todo dia por este espaço. Cavo meu caminho na unha”, orgulha-se.

Clarices e Marias conversou com Andréa sobre o poder das artes para a libertação e empoderamento feminino. Confira abaixo a entrevista da artista que mudou sua vida e tornou-se uma verdadeira obra de arte para si e para outras mulheres.

Clarices e Marias: Andréa Tolaini, segundo o Google, é uma publicitária e artista de 32 anos. Mas quero falar sobre a Andréa que não está no Google, sobre aquilo o que te motivou e deu forças para abrir mão de uma carreira para se dedicar às artes. Como foi sua trajetória até aqui, em que se tornou essa artista que explora o universo feminino de forma tão sensível e grandiosa?

Andréa Toalini: Eu acho que tocar as pessoas é inevitável quando você está sendo franca. Quando expressamos o que realmente sentimos em relação a vida, é natural que as pessoas se conectem. A verdade conecta as pessoas, mesmo que seja cruel e dolorida.
Eu tive que aprender a ser franca e ainda sinto que estou aprendendo a me despir de minhas próprias máscaras.

ouveEu sou de uma família bem tradicional, daquelas que mantém costumes tradicionais, como a ideia de que uma mulher não pode sair da casa do pai até ter um marido. Uma mulher não pode muita coisa em minha família: se a gente quer ter sucesso, precisa ter um bom trabalho e um bom marido. Estar neste lugar sempre me incomodou e eu não entendia exatamente porque.

Por muito tempo persegui estes ideais e, enquanto estive na Publicidade, só queria crescer na carreira, ganhar dinheiro e ter um marido tão ou mais bem sucedido financeiramente do que eu. Tudo isso até que minha mãe adoeceu e, aos 55 anos, veio a falecer. Isso deu um nó na minha cabeça, porque ela faleceu muito cedo. Desde então, eu me pergunto todos os dias: e se eu for morrer com a mesma idade que minha mãe morreu, o que eu gostaria de fazer hoje? Por que eu gostaria de me levantar da cama? Por quais causas lutar? Como faço para me divertir até lá? Isso sem dúvida foi um dos maiores empurrões que eu tive para largar a carreira publicitária: a urgência que se tornou para mim ser feliz.

Nesta urgência, eu tenho me deparado cada vez mais com coisas novas: me questionei se minha postura e posição no mundo como mulher era como eu realmente queria – claramente percebi que não. E continuo percebendo novas nuances desta questão através da minha convivência com mulheres e por estar cada vez mais próxima das questões que permeiam o universo feminino. Percebi que eu tinha posturas (e até hoje tenho várias) apenas agradar a minha família e a sociedade, em uma busca por pertencer a algo.

Com a morte da minha mãe, os problemas em minha família ficaram claros e me fizeram pensar que servir a isso me tornaria também uma pessoa doente. Então comecei a trabalhar os padrões, aqueles comportamentos e escolhas que temos só porque aprendemos e não por experiências pessoais. Nesta busca por desconstrução e por encontrar cada vez mais o que eu realmente sou, eu passei a criar.

tpmA arte como um ofício veio em meio a todas estas descobertas. Indiretamente, eu sempre produzi arte, mas sem saber que aquilo poderia ser uma profissão. Quando sonhava em trabalhar com arte, uma voz interna logo vinha para me me boicotar. Era uma voz social e familiar repressora que dizia: “Essa coisa de trabalhar com arte é só pra gente muito boa e você não é muito boa o bastante”. Abri mão de realizar isso por muito tempo.

Em meus questionamentos sobre sociedade e família, percebi que aquele não era um pensamento meu e vinha, sim, de outros lugares. Eu queria viver do que eu acreditava e, então, me tornei artista e resisto até hoje a esses pensamentos.

CM: A partir do momento em que decidiu se dedicar às artes, como foi sua descoberta do universo feminino como tema principal?

AT: Quanto mais eu fui percebendo que minhas questões e dores mais profundas estavam extremamente ligadas as imposições sociais e familiares sobre ser mulher, minha arte se aproximou do universo feminino. Minha arte é uma forma que encontrei de trabalhar minhas questões pessoais. Sendo mulher neste mundo opressor com o gênero não teria como minha arte escapar disso. Quanto mais vivo a arte, mais sou obrigada a tocar nos aspectos mais profundos sobre ser humana, sobre ser mulher.

A temática feminina envolve meu trabalho, porque vivo desta forma. Encontrei no Feminismo uma forma de me libertar de muitas amarras. Desenho sobre isso, porque vivo isso todo dia. Feminismo tem a ver com meu trabalho, porque é a minha busca por libertação. Desenhando o meu caminho dentro desta temática, acabo tocando outras pessoas que estão na mesma busca. 

eutuAlém disso, convivo muito com mulheres, vivo cercada delas e sempre fui. Nasci e já tinha duas irmãs mais velhas me esperando, além de uma mãe, muitas tias e avós. Sempre estive cercada de mulheres e assim sigo. Faço amizades com muita facilidade com mulheres e crio vínculos rapidamente. Me sinto cúmplice e acolhida por elas. E ter mulheres por perto o tempo todo fez com que eu percebesse que as nossas dores são semelhantes: as dores do abandono, da violência, do abuso, das traições, da solidão, das cobranças, assim como os extases. Percebi também nossas diferenças e como é linda a diversidade de necessidades e escolhas no universo feminino, a força e expansão do gênero.

Eu me empolgo só de falar, porque é realmente muito estimulante criativamente ser mulher apesar de todos os pesares. A luta faz com que eu crie o tempo todo, que tenha vontade de sensibilizar as pessoas, libertá-las dos padrões e auxiliá-las na busca por igualdade. Tudo isso me faz criar com afinco, paixão e visceralidade.

CM: Há muita libertação, força e sororidade em sua obra. Sinto como se estivesse diante de algo que me dá coragem para assumir o poder que cabe a mim como mulher. E você, o que você vê em sua produção? O que ela causa em você – tanto quando ainda está produzindo como ao ver suas produções prontas?

sombraAT: Eu vejo minha verdade. Meus medos. Minhas dificuldades. Minha busca. Meus pedidos de socorro. Minhas alegrias. Minhas amizades. Meus amores. Meus vícios. Meus amores frustrados. Meus aprendizados. Meu crescimento. Minha força. Minha solidão. Eu desenho meu próprio processo e estou sempre tentando ser o mais abrangente possível para que outras pessoas também se contemplem nesta criação. Tento usar uma metáfora para falar algo sobre mim, mas uma metáfora que inclua as pessoas todas em seu significado mais amplo. No fundo a gente se encontra na emoção, porque a dor é humana, assim como o êxtase. 

Quando eu finalizo um trabalho, normalmente, tenho uma sensação imensa de liberdade. Materializar algo que está dentro de mim é como libertar um pássaro preso e não tem como ser ruim libertar um pássaro, né? (risos) Quando finalizo um desenho, abro minhas gaiolas e me dou mais uma chance de ser livre. Esta é a sensação mais forte. Eu não crio porque estou trabalhando e preciso trabalhar, mas por necessidade de me salvar. 

CM: Como você se sente como mulher produzindo uma arte que fala sobre o nosso universo?

abismoAT: Eu me sinto livre. Me sinto derrubando os muros que foram impostos a mim e a outras mulheres. Me sinto lutando pelo que é meu por direito, pelo meu espaço no mundo e pelo reconhecimento que toda mulher deve ter. Eu luto todo dia por este espaço. E cavo meu caminho na unha. Quando eu abro um novo caminho, sei que muitas mulheres virão comigo, então minha sensação é a de trabalhar para algo maior, algo em que acredito. Trabalho pela visibilidade das mulheres e pela libertação das emoções numa sociedade anestesiada e doente.

Assumir minha força e minha vulnerabilidade publicamente, apesar de muitas vezes me colocar em situações difíceis, faz com que eu me sinta parte de uma libertação humana, uma libertação do gênero com o qual me identifico. Minha arte é um grito de liberdade no sentido mais amplo que consigo ver nesta palavra: a aceitação de como somos, de como queremos ser e o respeito a tudo o que sentimos.

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