Paulina Chiziane, primeira moçambicana a publicar um romance, estará na Flipoços nesse fim de semana

Um homem moçambicano. Polígamo, como admite a cultura de seu país, mas que vive relacionamentos não oficiais por ser casado pela religião católica – uma herança não solicitada de uma colonização europeia. Esse é Tony, personagem do romance “Niketche“, de Paulina Chiziane. Tony, no entanto, não é o personagem principal desta trama, mas Rami, sua primeira e oficial esposa, que por mais de 20 anos considerou-se a única. Neste quarto romance de Paulina, acompanhamos a saga de uma mulher que se descobre em um relacionamento polígamo e tenta compreendê-lo: seu marido mantém outras quatro esposas, considerando casas e filhos à margem. Em uma tentativa de aceitar e transcender sua situação, Rami se aproxima das outras famílias de seu marido, empoderando a si mesma e às outras mulheres, dando ao leitor um final inesperado.

Design sem nome“Niketche: uma história de poligamia” é uma história sobre empatia, sororidade e costumes. Adentramos Moçambique, tão plural em suas histórias e tomamos conhecimento de uma cultura africana marginalizada graças a imposição da cultura de seus colonizadores. A reflexão sobre poligamia é apenas a porta de entrada para um debate sobre a colonização e a condição da mulher no país. Conhecemos realidades, costumes e lendas e refletimos sobre tudo. 

“Era uma vez uma princesa. Nasceu da nobreza mas tinha o coração de pobreza. Às mulheres sempre se impôs a obrigação de obedecer aos homens. É a natureza. Esta princesa desobedecia ao pai e ao marido e só fazia o que queria. Quando o marido repreendia ela respondia. Quando lhe espancava, retribuía. Quando cozinhava galinha, comia moelas e comia coxas, servia ao marido o que lhe apetecia. Quando a primeira filha fez um ano, o marido disse: vamos desmamar a menina, e fazer outro filho. Ela disse que não. Queria que a filha mamasse dois anos como os rapazes para que crescesse forte como ela. Recusava-se a servi-lo de joelhos e a aparar-lhe os pentelhos. O marido cansado da insubmissão, apelou à justiça do rei, pai dela. O rei, magoado, ordenou ao dragão para lhe dar um castigo. Num dia de trovão, o dragão levou-a para o céu e a estampou na lua, para dar um exemplo de castigo ao mundo inteiro. Quando a lua cresce e incha, há uma mulher que se vê no meio da lua, de trouxa à cabeça e bebé nas costas. É Vuyazi, a princesa insubmissa estampada na lua. É a Vuyazi, estátua de sal, petrificada no alto dos céus, num inferno de gelo. É por isso que as mulheres do mundo inteiro, uma vez por mês apodrecem o corpo em chagas e ficam impuras, choram lágrimas de sangue, castigadas pela insubmissão de Vuyazi.”

Paulina-Chiziane-Imagem-2Por todas essas características únicas de sua escrita, Paulina Chiziane tornou-se uma mulher conhecida por sua habilidade de escreves romances com maestria sobre o que mais conhece: a realidade de Moçambique. Com nove livros publicados, foi a primeira moçambicana a publicar um romance, grande acontecimento para uma mulher que desafia as tradições de sua terra natal. “Dizem que sou romancista e que fui a primeira mulher moçambicana a escrever um romance (…) mas eu afirmo: sou contadora de estórias, estórias grandes e pequenas. Inspiro-me nos contos à volta da fogueira, minha primeira escola de arte”, diz afirma.

Neste fim de semana, o Festival Literário de Poços de Caldas (Flipoços), que acontece entre os dias 29 de abril a 07 de maio no Espaço Cultural da Urca, recebe uma comitiva de autores moçambicanos, país homenageado no festival, sendo Paulina Chiziane a única mulher entre eles.

No sábado, 29 de abril, ela estará presente na abertura oficial que acontece às 19h, onde será homenageada; na segunda-feira, 1º de maio, Paulina participará de um encontro com os escritores moçambicanos às 17h no Teatro da Urca; na quarta-feira, 3 de maio,  da mesa “Mulheres na literatura marginal/periférica” com Luz Ribeiro, Mel Duarte e Roberta Estrela D´Alva às 17h30; e na quinta-feira, 4 de maio, participará da mesa “As mulheres negras na literatura” ao lado de Íris Amâncio, Edna de Oliveira e Ana Maria de Paula às 19h.

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