Negra Nua Crua: a poesia de Mel Duarte, primeira mulher a vencer o Rio Poetry Slam

No fim do ano passado, a Cidade de Deus, no Rio de Janeiro, tornou-se palco do Rio Poetry Slam, primeiro campeonato de poesia falada internacional do Brasil. Essa foi a terceira edição da competição e aconteceu durante a Festa Literária Internacional das Periferias (Flupp), reunindo artistas de vários cantos do planeta. Uma observação: os slams, ou poetry slams, são encontros de artistas da poesia falada e performática muitas vezes acompanhados e avaliados por um júri popular, que observa tanto a poesia quanto o desempenho do artista durante a declamação.

Nessa edição do Rio Poetry Slam, representantes de 16 países se reuniram para declamar, em até três minutos, suas poesias para a plateia responsável pela avaliação. Entre todos esses, a paulistana Mel Duarte foi nossa participante brasileira. Mais do que nossa poeta representante, Mel tornou-se rainha na Cidade de Deus e, aos 27 anos, foi a primeira mulher a vencer tal competição. (No fim deste post tem um vídeo de uma das apresentações dela, mas segure a emoção!).

Depois desse feito, Clarices e Marias conversou com a poeta Mel Duarte sobre a importância da representatividade, da poesia e do slam. O resultado dessa conversa com a autora de Negra Nua Crua você vê aqui:

Clarices e Marias: Como foi a experiência de participar da Rio Poetry Slam? 

Mel Duarte: Foi incrível participar desse evento! Eu já o conhecia, pois alguns amigos haviam participado nos anos anteriores, mas essa foi a primeira vez que eu fui. Para competir no Rio Poetry Slam, você precisa ser convidado e existe uma curadoria para isso: a responsável por escolher esse time é a slammer, atriz e embaixadora do slam no Brasil, Roberta Estrela D’Alva, junto com sua equipe do Núcleo Bartolomeu de Depoimentos.

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Mel Duarte durante apresentação no Rio Poetry Slam (Foto: Reprodução)

Quando a Roberta me falou, eu fiquei um pouco perdida porque ainda estava absorvendo o fluxo das coisas depois da FLIPP e iria batalhar com mais 15 poetas de países diferentes ― só de pensar eu já tremia (risos). Enfim chegou a semana do evento e foi tudo muito especial, desde o trato que as pessoas da equipe tinham conosco até a galera da comunidade da Cidade de Deus que trabalhou muito pra fazer as coisas darem certo. Eu era abordada a todo tempo por pessoas no evento que tinham alguma história pra me contar sobre como meu trabalho fazia a diferença para elas, desde os seguranças até as senhoras, e foi tão bom receber esse carinho. Mas, ao mesmo tempo, isso fazia com que o frio na barriga aumentasse, pois ia sentindo a responsabilidade de estar lá e eu não queria decepcionar aquelas pessoas. Dei o melhor de mim e fiz certo!

CM: Como você se sente sendo a primeira mulher brasileira a vencer essa competição? 

MD: Me lembro no dia que eu venci a final e fui acertar a venda dos meus livros com a moça da banquinha que ficava no evento e ela me perguntou: “Mas e aí, você ganha alguma coisa com isso?”. E eu respondi: “Respeito”. Não existe nenhum valor em dinheiro e não fecho contrato com ninguém, mas tive a oportunidade de mostrar o meu trabalho para mais pessoas, de fazer conexões com uma galera de outros países que sabe Deus se um dia iria conhecer e mostrar pra mim que sou capaz, refletindo isso em outras meninas negras. Só eu sei o que foi ver os olhos das pretas que estavam todos os dias lá torcendo na hora daquela vitória. Foi uma vitória nossa e isso faz eu me sentir abençoada.

CM: Você passou alguns dias com grandes artistas da poesia falada. Você conheceu algumas mulheres que estavam participando também? Como enxerga a participação da mulher na poesia marginal?

MD: Sim, conheci várias e pude me aproximar de outras que por conta da correria em São Paulo não tínhamos tanto contato. Falando das mulheres brasileiras, nós temos uma força que é única: pude ver uma menina de 17 anos do interior de Minas Gerais e uma senhora de 75 de São Paulo declamarem e ambas me emocionavam com tal força, que eu me alegrava muito por estar ali absorvendo tudo aquilo.

Sinto que de alguns anos pra cá as mulheres estão cada vez mais inseridas na poesia. Ano passado foi a prova de que além de estarmos aumentando, estamos chegando com tanta qualidade e verdade, que os homens competitivos do meio estão perdendo espaço de forma drástica (risos).

CM: Como você, enquanto mulher negra, encontrou a poesia como porta-voz das suas lutas?

MD:  Escrevo desde os 8 anos. Hoje tenho 28. Demorei para entender que a poesia poderia ser uma ferramenta de luta. Até certo momento, era mais uma válvula de escape, um desabafo que ficava solto por aí. Quando comecei a receber o retorno das pessoas que eram atingidas por essas palavras e comecei a entender a força que elas tinham, eu não tive dúvidas do tanto que isso poderia me ajudar e, consequentemente, atingir outras mulheres. Entendi que minha arma mais poderosa é a voz, a fala.

CM: Muitas dessas lutas, claro, não são só suas. Muitas mulheres negras lutam e sonham com igualdade, respeito, oportunidade todos os dias e você ecoa isso em sua poesia. Como você vê essa representatividade que você proporciona?

MD: Eu entendo que isso é uma responsabilidade e tanto (risos). Quando algumas meninas vêm conversar comigo chorando, daqui a pouco eu estou chorando também (risos). Sou muito sensível e pra mim é muito incrível ser tão especial na vida de alguém, assim como alguns artistas são para mim. Fico feliz em ser um ponto de esperança e de força pra elas. Quando eu era jovem, precisei muito disso e demorou pra chegarem até mim as referências. Me contempla poder ser uma das tantas maravilhosas que existem para alguém.

CM: Há uma falta imensa de incentivo aos jovens quanto ao contato com a literatura, o que significa que a parcela de meninas negras que chegam a ter esse contato e a ganhar uma competição de poesia, como aconteceu com você, é pequena. Como você lidou com essa situação? Quem te inspirou?

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Livro de Mel Duarte publicado pela Editora Ijumaa 

MD: Existem certos chamados na vida dos quais a gente não consegue fugir. Realmente falta incentivo à leitura e à escrita literária no Brasil. Nunca ouvi uma criança dizer: “Quando crescer, quero ser poeta!” (risos). Eu nunca tive esse pensamento, apenas fui uma criança que gostava de escrever por vontade própria, nasci com isso. Não fui influenciada por ninguém, mas a escola foi uma grande impulsionadora, claro. Sempre gostei das aulas de português, sempre era a favor das redações e não precisei crescer vendo isso na minha família, apenas segui meus instintos. Meus pais são muito ligados às artes, então sempre tive mais aptidão para tudo que precisava usar criatividade, interpretação, música. Fui começar a me inspirar em alguém pensando na literatura lá para os meus 15, 16 anos e só fui conhecer mulheres negras inseridas nesse contexto com 18…

CM: Hoje, quem ou o que inspira Mel Duarte, adulta, autora de Negra Nua Crua e vencedora do Rio Poetry Slam?

 MD: Viver me inspira. Minhas experiências, meus erros e acertos. Aprender a observar, a calar e a falar na hora certa, tudo isso é vivência e matéria-prima pra se inspirar. Não existe uma única coisa, isso seria limitar algo que é infinito.

 

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