“Você é minha mãe?”: drama, psicanálise e memórias em quadrinhos

É bem provável que você nunca tenha ouvido falar sobre ela, mas já deveria: Alison Bechdel é uma cartunista americana de 56 anos que está em atividade desde 1983 e possui dois livros publicados. Conhecida por sua série de tirinhas Dykes to Watch Out For, Alison publicou seu primeiro livro em 2007: Fun Home foi apontado como melhor livro do ano pela revista Time, finalista do National Book Critics Circle Award e ganhador do Eisner Award, considerado o Oscar dos quadrinhos. Além disso, este livro ganhou uma adaptação musical na Brodway, feita pela dramaturga Lisa Kron e pela compositora Jeanine Tesori, que recebeu cinco prêmios Tony Awards. Com todo esse currículo, dá pra ver que Alison merece nossa atenção, né?

voce-e-dentroTalvez tenha sido por isso que seu segundo – e, por enquanto, último – livro, Você é minha mãe?, foi escolhido pelo Leia Mulheres de Campinas como a primeira obra a ser lida e discutida em 2017 no encontro que acontece agora em Janeiro, no dia 16 (para maiores informações, clique aqui). Publicado pelo Quadrinhos na Cia., selo da Companhia das Letras dedicado às histórias em quadrinhos, o segundo livro de Alison Bechdel é incrivelmente humano e arrebatador, desses que fazem você repensar sua própria vida.

Em Fun Home, a autora trata de sua relação com o pai, um professor de literatura que revelou-se gay para a família apenas na velhice e acabou se suicidando (não, isso não é um spoiler!). Dessa vez, em Você é minha mãe?, Alison repensa sua vida  ao lado da mãe, uma atriz aparentemente frustrada, esposa decepcionada e uma genitora que nunca deu a atenção que a criança Alison esperava e que reluta para aceitar que sua filha também seja gay.  É um livro de memórias, em que acompanhamos de forma surpreendente o processo de escrita do livro dentro de sua própria narrativa: Alison fala sobre seu processo de criação, além de encaminhar partes de seu livro para a mãe e relatar suas reações, comentários e decepções.

image3-2“A função do escritor é encontrar uma configuração na vida conturbada que sirva à trama. Não, é bom notar, que sirva à família, ou à verdade, mas que sirva à trama”. Diz a mãe a Alison em determinado momento-chave. “Uau”, responde a autora. “Pois é! A família que se dane”, conclui uma resignada mãe que sabe que a arte sempre estará acima de tudo – mesmo que isso implique em sua filha expondo sua vida de alguma maneira em um livro.

Você já é minha mãe? é recheado de citações, tanto literárias como psicanalíticas: característica considerada negativa pelo The New York Times e pelo The Guardian, Alison Bechdel abusa, de fato, das referências à psicanálise, mas isso não é um algo ruim. A cada começo de capítulo, Alison narra um sonho emblemático que teve e, posteriormente, descreve suas conversas com a ou as psiquiatras. Ao longo da vida, a autora contou com várias profissionais e isso é realmente um grande marco de sua vida, retratado incansavelmente em suas memórias. É uma grande mistura de citações de Virginia Woolf, Sigmund Freud, Donald Woods Winnicott e Alice Miller que dá certo. Ao final da leitura, sabemos um pouco mais sobre Alison, sobre Virginia Woolf, sobre psicanálise e sobre nós mesmos.

“Não me importo com a parte sobre mim e seu pai. Para ser bem sincera, você não chegou nem perto da minha história. É a sua percepção, e tudo bem”. Alison encerra Você já é minha mãe? com um grande arrebatamento: tudo é seu, são suas memórias, seus relacionamentos. Sua tentativa de expurgar o mau relacionamento com a mãe e sua busca por atenção é concluída: a percepção de Alison não chega nem perto de quem realmente foi sua mãe e tudo bem, pois a literatura é sua válvula de escape e, coincidentemente, sua forma de resolver maus entendidos da vida.

Laura Miller inicia sua resenha deste livro para o The Guardian com essa reflexão, que é inegavelmente pertinente para encerrar esta daqui, falando sobre mães e filhas: “Se qualquer tipo de relacionamento humano pode ser chamado tipicamente barroco, é o relacionamento entre uma mulher e sua mãe. Homens prudentes vêem as complexidades deste terreno com espanto. Até mesmo em laços tranquilos criados entre mães e filhas, há florescimento de apego, ressentimento e ternura que nenhuma pessoa sensata jamais tentaria traçar”¹. Alison Bechdel sabe que não se pode traçar nada disso e faz de seu livro de memórias um autoconhecimento, e por isso Você é minha mãe? é tão encantador.

¹ Tradução livre feita pela autora.

 

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