“Mulher no cinema”: Luísa Pécora e a celebração do papel da mulher na sétima arte

Talvez você já tenha reparado que a quantidade de projetos, páginas e organizações que buscam exaltar a participação de mulheres nos mais variados ramos de atividades está cada vez mais crescente. São sites, páginas no Facebook, Instagram ou Twitter que recheiam sua timeline com notícias e informações sobre trabalhos interessantes que estão sendo feitos por mulheres e são pouco divulgados pela grande mídia. É o caso desta página, por exemplo, que você está acompanhando e é também o caso do tema da matéria desta quinta-feira: Mulher no cinema, um site criado por uma mulher e voltado exclusivamente para falar sobre a participação feminina em frente e atrás das câmeras.

Desde o ano passado, Luísa Pécora, jornalista freelancer de 29 anos, dedica-se 24 horas por dia durante os sete dias da semana ao Mulher no cinema, celebrando diariamente o trabalho das mulheres nas telonas. Cinéfila apaixonada – e consciente – , Luísa sempre soube da desigualdade de gênero que assombra o cinema mundial, mas cada vez mais alarmada por alguns dados deste cenário, viu-se no papel de chamar a atenção para essa temática. Você sabia que de todos os filmes europeus lançados entre 2003 e 2012, apenas 16,3% foram dirigidos por mulheres? E que no Brasil, em 2015, diretoras foram responsáveis apenas por 14,8% dos lançamentos? E que neste mesmo período, nos Estados Unidos, elas representaram míseros 9% nas 250 produções de maior bilheteria?

1Clarices e Marias conversou com Luísa Pécora sobre cinema, projetos culturais e mulheres. Luísa, que, por sinal, também tem se dedicado a outro projeto social que conta com o apoio de outras 5 mulheres: Quero na Escola é uma ferramenta para estudantes de escolas públicas de todo o Brasil pedirem aulas que gostariam de ter, mas que não fazem parte do currículo obrigatório. Eles entram no site, cadastram o pedido – que pode ser fotografia, grafite, capoeira, aprender a andar de bicicleta, ver uma palestra sobre feminismo ou qualquer outra coisa – e a equipe do projeto encontra um voluntário que possa ir até a escola dar a aula pedida! Conheça um pouco mais sobre a mulher incrível por trás desses projetos agora mesmo:

Clarices e Marias: Como surgiu a ideia de criar o Mulher no cinema? Qual é a história deste projeto?

Luísa Pécora: É difícil pontuar exatamente quando começou meu interesse pelo assunto – recentemente achei um trabalho que fiz no colegial sobre diretoras brasileiras, do qual eu nem me lembrava. Então talvez seja um daqueles interesses que a gente tem sem saber que tem. De qualquer forma, comecei a acompanhar de perto mesmo em 2009, quando assisti Guerra ao Terror, dirigido por Kathryn Bigelow. Como tinha gostado muito do filme, comecei a ler sobre ele e sobre a diretora. Na época, a imprensa americana falou bastante sobre desigualdade de gênero, porque havia a possibilidade de uma mulher ser indicada ao Oscar de direção – algo bastante raro, e que de fato acabou acontecendo. Foi nesse momento que eu realmente percebi como a desigualdade de gênero era uma realidade em Hollywood e em outras cinematografias.

De lá para cá nunca parei de acompanhar as discussões, e em 2013 fiz uma série de reportagens sobre o assunto para o portal iG, no qual eu trabalhava na época. A resposta dos leitores foi boa, e o mesmo aconteceu com reportagens semelhantes que fiz nos dois anos seguintes. Por causa disso, tinha uma suspeita de que havia gente interessada por esse assunto no Brasil, mesmo que as discussões aqui estivessem bem menos avançadas do que no exterior. Achava que faltava um veículo que produzisse conteúdo em português, ou seja, que fosse acessível a todo mundo. E também que reunisse todas aquelas tantas notícias e estudos que estavam sendo publicados lá fora. Pensava que seria ótimo se eu pudesse entrar em um único site e encontrar tudo o que eu queria, ao invés de ter de acessar vários portais, jornais, revistas, etc. Em junho de 2015, decidi que eu mesma ia fazer isso e, então, criei o site que eu mesma queria ler, mas com a suspeita de que mais gente se interessaria.

CM: Por que criar uma página que retrate a participação das mulheres no cinema, por trás e na frente das câmeras? 

LP: Já me fizeram essa pergunta algumas vezes: “Por que um site sobre a mulher no cinema, se não existe site sobre o homem no cinema?” Em geral eu respondo com dados, porque acho que eles mostram como a desigualdade de gênero no cinema é uma realidade. Dos 250 filmes de maior bilheteria nos EUA no ano passado, 9% foram dirigidos por mulheres. De todos os lançamentos brasileiros de 2015, só 14,8% foram dirigidos por mulheres. Só uma mulher ganhou o Oscar de direção e só um filme dirigido por mulher ganhou a Palma de Ouro em Cannes. E em frente às câmeras o cenário também é desigual: há muito menos filmes protagonizados por mulheres e as personagens femininas em geral têm menos falas e mais cenas de nudez.

Além disso, acredito que as dificuldades enfrentadas pelas mulheres no audiovisual são um reflexo das dificuldades que as mulheres enfrentam em qualquer profissão: menos oportunidades, salários mais baixos, desconfiança quanto ao seu trabalho, pressões estéticas etc. Logo, falar sobre a mulher no cinema é falar sobre a mulher. E dado o poder e a influência da mídia e da indústria do entretenimento, promover a igualdade de gênero nas telas é sem dúvida uma forma de promover a igualdade de gênero.

Seria difícil fazer esse trabalho de forma constante em um portal, jornal ou revista de conteúdo geral. Como as equipes estão cada vez mais reduzidas e há muitos assuntos para cobrir, é raro um repórter poder se dedicar a um só assunto, acompanhar de fato, produzir conteúdo aprofundado. O Mulher no Cinema, ao contrário, tem um foco único. Acho que é importante que exista um espaço permanente de discussão, que esteja sempre ali para dar voz às mulheres que fazem cinema e colocar o público em contato com o trabalho delas.

mulhernocinema_logoCM: Como foi dar vida ao Mulher no Cinema

LP: A execução dessa ideia foi super rápida e sem grande planejamento. Eu tinha deixado meu emprego após sete anos e queria aproveitar esse momento para desenvolver um projeto meu. E aí um belo dia (uma bela noite, na verdade), simplesmente sentei e coloquei no ar. Fui produzindo conteúdo e depois de um tempo mandei o link para algumas amigas darem uma olhada. Uma delas compartilhou no Facebook e a partir daí o site ficou sendo público (risos). Como disse, tinha a suspeita de que havia interesse. Mas a resposta foi melhor do que eu pensava.

CM: Falando sobre cinema, como surgiu sua paixão pela sétima arte?

LP: Não sei se consigo pontuar exatamente como surgiu, mas meu pai e meus irmãos tiveram uma grande influência, pois me lembro bastante de ver filmes com eles quando era bem nova. Um filme marcante para mim foi Cidade dos Sonhos, do David Lynch, que vi quando tinha uns 15 anos. Lembro de sair da sala meio maravilhada: não tinha entendido um monte de coisa, mas tinha adorado tudo. Que eu me lembre, foi a primeira vez que senti que tinha passado por uma experiência cinematográfica e não apenas visto um filme. E acho que isso me aproximou do cinema em geral.

CM: Como você enxerga o cenário atual do cinema e, principalmente, como enxerga o papel da mulher nele?

LP: No que diz respeito à mulher, acho que o momento é de tomada de consciência. Não tenho a menor dúvida de que o debate tem crescido – e rápido – tanto no mundo quanto no Brasil. Lembro, por exemplo, que tive dificuldade de encontrar cineastas brasileiras dispostas a falar sobre desigualdade e machismo na minha primeira reportagem sobre o assunto. Isso foi em 2013, há apenas três anos. Hoje, muitas profissionais falam abertamente sobre o assunto. Além disso, a Ancine nem tinha estatísticas sobre filmes dirigidos por mulheres – agora já tem. Isso sem contar os coletivos, cineclubes e grupos no Facebook que se formaram nos últimos meses. Isso tudo é muito positivo.

No entanto, ainda é cedo para dizer se uma mudança está de fato acontecendo e para arriscar uma previsão. Nenhum estudo recente apontou melhora realmente significativa quanto à participação da mulher no cinema. E qualquer dado precisa ser confirmado durante alguns anos antes de podermos enxergar uma tendência. O que não significa que não existe nada a se comemorar. É significativo, por exemplo, que Ava DuVernay tenha se tornado a primeira mulher negra a dirigir um longa com orçamento de US$ 100 milhões. Ou que Mulher Maravilha esteja chegando aos cinemas, um filme inspirado em quadrinhos que tem mulher na direção e no papel principal. Ou que a Spcine tenha lançado um edital de curtas com paridade de gênero na comissão julgadora e nos artistas contemplados. Tudo isso é positivo. Mas os próximos anos vão dizer se foram mais do que avanços pontuais.

CM: O Clarices e Marias é um projeto que surgiu de uma grande e sincera vontade de colaborar para a divulgação de projetos culturais realizados por mulheres, como o seu. Mulher no Cinema faz com que eu sinta que meu projeto está sendo acolhido e com parceiros, como se fôssemos todos parte de uma grande rede de mudanças que surgem a partir da internet, que propõem discussões e reflexões e, principalmente, divulgam e dão acesso. Como você vê o papel transformador da internet e como vê o surgimento de projetos como esse?

LP: Acho que a internet tem um potencial transformador muito grande, sobretudo pelo modo como conecta as pessoas e cria essa sensação de rede, de fazer parte de um movimento, de não estar sozinho. Acredito, por exemplo, que cada vez que uma atriz ou diretora fala sobre machismo e desigualdade no cinema, estimula outras atrizes e diretoras a fazerem o mesmo. E acho que as redes sociais também têm mostrado a disposição do público em ouvir e ajudar. Um bom exemplo é o debate sobre Que Horas Ela Volta? que ocorreu no Recife no ano passado. As pessoas que estavam na plateia usaram a internet para contar o que tinha acontecido, os amigos comentaram e compartilharam, e assim o assunto chegou à imprensa. No fim das contas, essa ação via internet pautou muitas discussões sobre a mulher no cinema.

Ao mesmo tempo, também vejo o risco de nos aproximarmos apenas de projetos semelhantes aos nossos e de pessoas que pensam como a gente. A internet facilita que eu fique no meu próprio mundo, fechada no conteúdo que me é confortável e que confirma o que eu penso. Basta bloquear o amigo que pensa diferente, deixar de seguir determinada página, sair do grupo do WhatsApp, aproveitar o algoritmo do Facebook que só me entrega o que eu quero ver. Aos poucos, vamos perdendo o contato com a realidade que não está no nosso feed. Vejo esse ano como uma repetida constatação de como as bolhas online reforçam as bolhas reais, de como a internet tem o poder de conectar pessoas, mas também de aumentar nossa desconexão com o mundo. É fundamental contar com o apoio de quem pensa como a gente, mas não há sentido em apenas pregar entre convertidos. A questão, para mim, é: como podemos nos conectar de forma mais ampla? Como vamos fazer para conversar com quem pensa diferente – seja na internet ou no almoço de domingo?

 

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