Nasce uma escritora: breve relato sobre o lançamento do primeiro livro da sergipana Mônica Meira

Na noite da última quarta-feira a Livraria Escariz localizada em um agradável bairro de Aracaju era palco de um nascimento: ali ganhava vida um sonho e também uma escritora. Porque é assim: não importa há tanto tempo você escreva e desempenhe a função de escrever, o sonho de todo escritor é ver seu livro publicado. Lançamentos e leitores, e assim consagra-se escritor.

Mônica Meira, que ao longo de seus 27 anos nutria forte paixão pela literatura, acaba de lançar de forma totalmente independente seu primeiro livro. Graduada em Direito, escreve contos e crônicas desde a infância, mas passou a produzir, nos últimos anos com mais intensidade, poesias. Estas eram publicadas em sua página Vermelho Vivo, que aos poucos deu a força e a maturidade necessárias para que ela reunisse parte de sua produção poética no livro Sala de estar.

capa.inddContemplar a vida e a diversidade de sentimentos do ser diante de si mesmo, do outro e do mundo: essa é a intenção das palavras que jorram do primeiro livro de Mônica. Além da capa delicada e familiar, suas poesias, sempre singelas – talvez uma referência a Manoel de Barros, um de seus preferidos – também retratam a volubilidade das emoções diárias e as transformações que invadem um dia comum. “O livro é um aglomerado de retratos e sensações comuns, imersos no cotidiano que confunde, na reflexão que conflui e na natureza que ilumina. É o ser diante de sua mais ampla missão: estar”, descreve, objetiva e poeticamente, sua própria criadora.

Clarices e Marias aproveitou o lançamento deste primeiro livros de Mônica para conversar com a autora sobre suas inspirações, sobre poesias, sobre ser escritora. O resultado dessa conversa e também uma das poesias de Sala de estar você confere aqui:

Clarices e Marias: Como a literatura surgiu na sua vida? E quando você percebeu que escrever era algo que você gostaria de fazer ao longo da vida?

Mônica Meira: Surgiu naturalmente, organicamente. Nunca disse “vou ser escritora”, eu simplesmente escrevia. Dessa forma, fiz alguns livrinhos manuscritos. Sobre decidir como algo que eu gostaria de fazer ao longo da vida, também nunca houve esse momento. Como no começo, acabou sendo uma expressão muito natural, concomitante a tudo que sempre fiz.

CM: Quais são as suas maiores influências na escrita? Você é mais tendenciosa a escrever poesia do que prosa?

MM: Eu costumo ler muito mais prosa, mas curiosamente escrevo mais poesia, especialmente nos últimos seis anos. Clarice Lispector, Manoel de Barros, Drummond, Ana Cristina César, Leminski. A lista é grande, mas estes eu poderia citar como minhas maiores referências na poesia. Incluindo Clarice, que apesar de escrever em prosa, possui uma veia profundamente poética com a qual me identifico.

CM: Sala de estar é seu primeiro livro de poemas, que você descreve como um aglomerado de retratos e sensações comuns. Qual é o fio condutor destas poesias? 

MM: É um livro de poesias introspectivas. Um aglomerado de retratos e sensações comuns, imersos no cotidiano. Uma imersão na intensidade dos sentimentos mais profundos, mas também na força da existência das coisas mais simples. O fio condutor deste livro é o estar diante das coisas.

CM: Você mantém há algum tempo a página Vermelho Vivo, onde publica parte de sua produção poética. Você acredita que sua atividade na internet colaborou para a produção deste livro? Tanto para um feedback do seu trabalho como agora para a divulgação?

MM: Completamente. Não só colaborou como incentivou. Ampliou o meu público e, inclusive, levou o meu trabalho a locais em que eu nunca estive. Para a divulgação, especialmente, contribui muito.

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Mônica Meira lançou seu primeiro livro, “Sala de estar”, na última quarta-feira (16) em Aracaju

CM: Um escritor torna-se escritor a partir do momento em que consegue produzir, mas é um sonho tornar este trabalho algo palpável como um livro. Como você se sente neste momento em que tem em mãos seu primeiro livro?

MM: É uma sensação confusa. Um misto de alegria, alívio, angústia e timidez. Angústia por uma certa inquietude diante do que está ali e que não posso mais mudar caso eventualmente eu queira. A timidez, por estar sendo lida não só por escrito, mas de forma extensiva à minha própria alma. Além dos julgamentos, alguns pertinentes, outros bem equivocados. Mas a sensação predominante é de alegria e profunda realização. Especialmente por estar recebendo um feedback tão carinhoso dos leitores.

CM: Como é ser uma jovem escritora no Brasil? Pode me contar um pouco sobre essa experiência? Como foram seus passos até este momento?

MM: Existe um espaço muito interessante e vasto onde os jovens escritores de poesia têm transitado. Leio muitos deles, Alice Sant’Anna, Gregório Duvivier, Bruna Beber, Ana Martins Marques. Na minha cidade descobri Débora Arruda, já lia Bruno Pereira. Infelizmente esse circuito ainda está muito restrito ao Sudeste do país, temos maravilhosos autores em todos os lugares. A produção jovem tem sido vasta, a internet auxilia muito nesse processo. A minha primeira experiência com a publicação de um livro está sendo agora, mas nunca deixei de escrever e publicar nos espaços que destinei a isso.

CM: Não raro nós ouvimos histórias de escritoras que tiveram seus talentos postos em dúvida pelo simples fato de serem mulheres. Em algum momento você sentiu alguma diferenciação ou mesmo rejeição por você ser mulher? O caminho foi mais difícil por conta disso?

MM: Ser mulher, jovem e poeta é um tremendo desafio. Poeta introspectiva, então… Já perdi as contas de quantas vezes fui sugestionada como “fofa”, “romântica”. De quantas vezes fui questionada para que tal “príncipe encantado” eu escrevia os meus poemas. Tudo isso vindo de pessoas, todos homens inclusive, que sequer leram o meu trabalho ou refletiram sobre ele, mas que se sentiram aptos a julgá-lo de uma forma grotesca que nunca me alcançou como elogio. Na verdade me sinto realmente diminuída quando escuto coisas assim. Para uma sociedade machista, uma mulher jovem não tem nenhum outro tema que não: coração partido e homem idealizado. Façam-me um favor… Isso é muito frustrante, e um completo e tenebroso engano. Não preciso escrever com brutalidade ou estampar um corvo em decomposição na capa do meu livro para falar sobre coisas brutais e dolorosas.

Acho que tudo isso é fruto de uma grande ignorância, na verdade. A minha poesia não é um reflexo intrínseco da minha aparência ou da minha forma de cumprimentar pessoas na rua.  Meu eu lírico não tem sexo, idade, nem franjinha. O fato de eu por ventura agir com delicadeza não me condiciona a um rótulo de “escritora delicada”. Posso também ser isso, mas qualquer generalização me apavora pela condição incapacitante que ela traz consigo.

CM: Como uma jovem escritora que lança seu primeiro livro, quais dicas você daria para os jovens escritores que leem agora esta entrevista?

MM: Escrever, escrever e escrever. E depois juntar tudo que mais gostar e tentar publicar. Seja na internet ou mesmo num livro. Buscar uma editora ou patrocínio, mas caso isso não seja possível, como na maioria dos casos dos primeiros livros de um escritor, lançar o seu livro de forma independente. As facilidades não são muitas, como para todo artista da cena independente do nosso país. Mas é preciso ir à luta, ir em busca com as próprias mãos.

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