Nana Queiroz: “Ou você é feminista ou você é machista: essas são as duas opções”.

Pensar em temas, escolher autoras, escrever, organizar textos: todas funções desempenhadas por Nana Queiroz, autora e também organizadora do livro “Você já é feminista“, publicada pela Pólen Livros. Há pouco Clarices e Marias fez uma resenha deste livro (se você ainda não leu, clique aqui) e agora apresenta a vocês  resultado de uma conversa com Nana, em que falamos sobre a produção deste livro, Feminismo e internet, ferramenta cada vez mais usada pelos Movimentos Feministas. Confira:

14068094_999994943451029_4356460930661544619_n

Nana Queiroz e as autoras de “Você já é feminista”.

Clarices e Marias: “Você já é feminista” apresenta 23 textos de 16 autoras. Você, além de autora de diversos deles, também é a organizadora do projeto. Como foi essa experiência de ser autora e organizadora ao mesmo tempo, selecionando temas e autoras?

Nana Queiroz: A experiência de ser organizadora e autora é muito mais fácil do que ser apenas autora, porque você tem um monte de mentes trabalhando junto e isso sempre acrescenta muito ao projeto. É um trabalho muito mais de organizar agendas e pessoas do que ficar pensando em conteúdo. Eu pensava em quais conteúdos eu queria, de maneira bem vaga, e buscava as mulheres que achava que seriam mais adequadas para escrever sobre os temas. Eu falava: “dentro desse tema-chave, o que você pensa que é mais relevante para colocar ali?”. Foi assim que nós fizemos e demos liberdade para cada uma das autoras que eu gostaria que estivessem no livro, que são pessoas que têm bastante experiência naquelas áreas ou que nós já conhecíamos por causa da revista AzMina e que poderiam falar sobre aqueles temas que elas tinham expertise e o que achavam mais relevantes como subtema.

CM: Logo na abertura do livro você “justifica” o título da obra dizendo que é muito provável que a leitora que tem o livro em mãos seja feminista e que ser mulher e não ser feminista é a mesma coisa do que um cachorro não ser a favor dos direitos dos animais. No entanto, ainda há um medo em declarar-se feminista e, principalmente, há um grande preconceito contra o movimento. Como você vê essa situação, considerando que nunca antes falar sobre Feminismo foi tão fácil, já que temos a internet?

NQ: As mulheres ainda têm medo de se declararem feministas, sim. Em parte é porque os movimentos contrários ao Movimento Feminista tendem a ser bastante bem-sucedidos na criação de um estereótipo de mulher feminista raivosa, dessa pessoa horrível, assassina de bebês, que não é a realidade. E em parte também porque nós, feministas, temos que ser mais abertas para acolher. Eu sinto que existe um discurso muito difícil, que é um pouco elitista, e a gente ainda não entendeu que o elitismo não precisa ser só um elitismo econômico, mas também pode ser um elitismo intelectual, que é o que a gente tem feito. Sinto que às vezes, nesse “feminismo de internet”, existe uma resistência em acolher as pessoas que nunca ouviram falar de Feminismo e que estão chegando ali pela primeira vez. Não tem problema nenhum em não saber. Ninguém tem o direito de roubar a “carteirinha de feminista” de alguém. Eu faço um mea culpa, porque eu realmente acho que isso é culpa nossa também.

Sobre o Feminismo estar bastante popular, de fato está, mas ainda está muito na bolha da classe média. O Feminismo precisa se ampliar mais; e, mesmo quando chega às periferias, é na periferia Rio-São Paulo, Minas Gerais, Brasília, mas as mais pobres do Brasil ainda não ouviram falar disso. E as mulheres dessas comunidades sofrem um impacto muito grande, elas rejeitam o status quo. Então a gente ainda tem que chegar a essas pessoas e aí está a maior resistência: onde não há a rede de suporte dessas mulheres para que elas se reconheçam feministas, e se reconhecer feminista não é de graça, você sofre por isso. Por exemplo: não é todo cara que vai querer namorar uma mulher empoderada, existe homem que faz questão de se relacionar com uma mulher menor que ele, porque é mais fácil para o ego dele e porque ele está acostumado a ser machista. Quando uma mulher se declara feminista, ela vai ter um impacto. Muitas mulheres que eu conheço perderam namorados, porque eles não estavam dispostos, por exemplo, a aceitar que elas ganhassem mais do que eles, ou que elas falassem em público, ou que elas conseguissem destaque, ou que elas se sentissem no direito de falar “não, você não gosta dessa roupa, mas eu gosto e vou usar porque o corpo é meu, e não seu”. Quando você vai sofrer essas retaliações, por você reagir ao status quo, você precisa de uma rede de apoio, porque se você não tiver, você não tem estrutura para aguentar. Nós somos seres sociais, precisamos ser aceitos pela sociedade em que vivemos. Sinto que em muitos lugares ainda falta essa rede social para as mulheres se reconhecerem feministas. Essa é a grande questão.

CM: No começo de “Você já é feminista”, parece que o apelo às mulheres é maior do que aos homens, mas é bem possível que um homem leia este livro, tanto para conhecer mais o Feminismo como para conhecer o básico. Você acha possível que isso aconteça ou o livro é voltado exclusivamente para mulheres?

NQ: Eu acho que os homens podem e devem ser feministas tanto quanto as mulheres. Nós fizemos este apelo para as leitoras, mas depois eu me arrependi, quando vi o livro pronto, sabia? Eu queria ter escrito leitor e leitora, porque ser mulher e não ser feminista é uma contradição terrível, muito mais do que ser homem e não ser feminista, mas mesmo os homens ganham com o Feminismo. Você nunca sabe se é uma mulher que está proibida de estudar quem vai descobrir a cura do câncer, por exemplo. Quando você coloca uma sociedade em que todo mundo pode se desenvolver ao máximo, você potencializa uma sociedade inteira. Quando você dá a 100% da sociedade a possibilidade de realizar 100% do seu potencial, toda a sociedade ganha com isso.

Vou contar uma história que eu gosto muito, que aconteceu durante uma palestra que eu estava dando. Um cara chegou e disse “olha, minha filhinha de seis anos chegou pra mim e perguntou: ‘pai, você é feminista?’”. Ele ficou todo sem graça: “veja bem, filha, o Feminismo é uma coisa das mulheres, eu não tenho nada a ver com isso…”. Ela disse: “pai, para de enrolar, ou você é feminista ou você é escroto” (risos). Ou seja, você tem que tomar um posicionamento a respeito dessa questão. Não dá pra passar no mundo sem se posicionar. E ou você é feminista ou você é machista: essas são as duas opções. E os homens se posicionarem como feministas, principalmente os homens que são pais, é muito importante, porque isso é o mínimo que a mulher vai esperar deles. Quem fala isso não sou eu, é o presidente Barack Obama, que fez recentemente um artigo para revistas feministas nos Estados Unidos falando isso: “eu sou feminista e eu gosto de ser feminista porque isso é o mínimo que as minhas filhas esperam de um companheiro!”.

Então quando um pai se declara feminista, quando um pai busca ter atitudes de desconstrução do machismo e ser feminista, ele tá empoderando essas filhas e criando um exemplo de homem. Quer queira, quer não, quando a gente se forma, a nossa psicologia e a nossa socialização se formam com base nos exemplos que a gente tem por perto, e um dos nossos exemplos é o nosso pai. Tem muitas mulheres heterossexuais que acham que o machismo é normal porque os pais delas são machistas. Ter pais feministas é importante.

Claro que ter a preocupação de que os homens tomem um espaço de voz que é das mulheres dentro do Feminismo é uma preocupação legítima, mas um homem que chega numa roda de discussão feminista tentando roubar a voz das mulheres não é feminista, ele ainda é machista e tem muito o que desconstruir. Mas se a gente não acreditar que a nossa ideologia tem o poder de converter e ganhar empatia, mesmo da classe opressora, a nossa ideologia é muito frágil. Eu acredito em homens feministas. Eu acredito na força da minha ideologia. Eu acredito na minha força argumentativa. Eu acredito que isso é possível.


CM
: Mais de uma vez entrei em uma livraria e vi seções de livros feministas em destaque, exposições que levavam os recentes “Você já é feminista” e “#Meuamigosecreto” ao lado de “O segundo sexo”. Estes são livros que, de alguma forma, vieram de ações da internet e que agora estão ao lado de grandes clássicos do Feminismo. Como você acha que a internet está mudando e colaborando para a divulgação desse ideal de igualdade?

14064166_999992443451279_2417229514617071050_n

Luisa Marilac e Nana Queiroz durante lançamento de “Você já é feminista” em São Paulo

NQ: Eu acho que a internet foi a maior ferramenta de democratização que a humanidade já teve e o Feminismo está sabendo se aproveitar disso muito bem no mundo inteiro e no Brasil principalmente. O que a gente chama de Primavera das Mulheres tem sido muito importante. Quando você olha essas meninas que estão crescendo agora com a internet, essa nova geração, elas já têm muito mais consciência dos próprios direitos, muito mais consciência de que elas não são inferiores aos homens.

Outro dia eu estava falando para o meu irmão de 16 anos que arrumou uma namorada e eu achei que tinha que ter uma conversa com ele: “você sabe que você tem que respeitar ela, só pode fazer o que ela quiser…” Ele ficou me escutando e depois falou: “ô, Nana, você acha que tem espaço para eu não respeitar ela? Se eu não respeitar ela, ela briga comigo sem dó!” (risos). E é isso: essa nova geração que cresceu com a internet, principalmente a das grandes metrópoles, já ouviu falar que elas têm esse direito, que elas têm o direito ao respeito, que elas não são inferiores. A internet fez isso por elas e pode fazer por todas as mulheres do Brasil e eu quero crer nisso para o futuro.

CM: Falando sobre livros, como você vê essas crescentes publicações sobre o tema? Uma conquista das ações virtuais passadas para o real?

NQ: Os livros são o próximo passo com relação ao movimento de internet, porque ele precisa ganhar profundidade ou então vai se perder em um discurso raso e raivoso. Por que eu falo isso? Porque a internet é assim: tudo tende a migrar a uma disputa de Fla-Flu, que é raso e raivoso e as pessoas só enxergam que ou você é x ou você é y.

O debate feminista tem espaço para muitas nuances. Primeiro porque temos muitas correntes feministas, muitas maneiras de ser feminista. Como o Feminismo é uma decisão que não é só ideológica, mas também uma decisão política que você precisa tomar na sua vida, ele incorpora uma série de outras decisões. Você pode ser feminista de n maneiras e isso é bom porque o Feminismo não é excludente: você pode ser uma mulher das mais variadas formas ideológicas e ser feminista desde que você esteja disposta a defender a igualdade sócio-econômica-jurídica das mulheres e dos homens. Então a literatura é o próximo passo necessário para que as mulheres que estejam realmente interessadas em se engajar nisso entendam qual é o papel do Feminismo e não fiquem no debate raso de internet, porque ele tende a desbancar para uma coisa que não é legal e é rasa.

CM: Quais são as suas previsões para o futuro do Feminismo, que agora tem como grande aliada a internet?

NQ: Eu sou uma grande otimista. Eu acho que a internet vai salvar as mulheres! (risos) Eu acho que nunca antes as mulheres tiveram tanta possibilidade de chegar a mulheres isoladas e nunca antes as mulheres tiveram um espaço de voz tão poderoso quanto a internet. E tem uma coisa muito importante, que é a questão da espiral do silêncio, que é quando várias pessoas pensam a mesma coisa, mas ninguém verbaliza, porque acha que ninguém mais vai achar aquilo. De repente alguém verbaliza aquilo na internet e outra pessoa vê e percebe que mais alguém pensa daquela forma. E você quebra o silêncio e esse movimento é muito importante. É isso o que a internet está fazendo pelas mulheres. Então eu enxergo o futuro do Feminismo com muito otimismo e acho que o Feminismo de internet precisa, sim, sair da internet e alcançar a política, as famílias, a sociedade e as escolas. Eu vejo esse caminho acontecendo, que isso está acontecendo e se convertendo em ações muito reais.

 

Deixe seu comentário pra gente!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s