Laís de Luna: breve retrato de uma artista espontânea e livre

“Expressão de pensamentos e traços próprios”: estes são, nas palavras da própria artista, os elementos que conduzem o trabalho de Laís de Luna. Paulistana irreverente que dedica sua vida à arte, atualmente atrai os olhares dos moradores da cidade de Campinas, interior de São Paulo, que passam pela Mostra Identidade Lúdica e apreciam parte de sua produção.

Com a proposta de celebrar o papel da criança na construção da identidade artística, a exposição não poderia homenagear de melhor maneira Outubro, o mês das crianças. Organizada por Biel Siqueira e Gustavo Vicentini, a mostra está no Espaço Arte e Cultura do Shopping Parque das Bandeiras até 7 de novembro e reúne grafite, tape arte e uma grande diversidade de técnicas e estilos. Uma das particularidades do evento é que ele contará com réplicas de cada uma das obras em escala menor para garantir a interação do público infantil com as artes expostas.

Pensando na infância e na importância deste período para a construção do olhar artístico, Clarices e Marias conversou com Laís de Luna, uma das artistas convidadas da mostra e que expõe ali obras que refletem seu olhar lúdico e livre. Confira:

Clarices e Marias: As suas lembranças de infância, refletidas inegavelmente em suas obras, dizem muito sobre você. Em que momento a arte começou a fazer parte do seu dia a dia?

Laís de Luna: A pintura, como forma de expressão individual, começou a fazer parte do meu dia a dia com mais força durante a adolescência. Apesar de ter tido uma infância maravilhosa, a vida não é só feita de flores, né? Nessa época, meus pais, que hoje são separados, começaram a viver uma crise no casamento. Não havia grandes discussões ou brigas homéricas, mas imperava uma guerra silenciosa. Toda aquela magia dos almoços e conversas na casa dos avós desapareceu, porque o diálogo sempre era ríspido e curto.

Canceriana que sou, comecei a viver mais dentro da minha conchinha e descobri no desenho e na pintura uma válvula de escape. Era e é uma paixão autodidata. Até tentei fazer um curso de pintura a óleo, mas quando a professora começou a pegar no meu pé dizendo que eu tinha de segurar o pincel da forma como ela ensinava, saí do curso. Devo ter feito apenas umas três ou quatro aulas. Para mim, o desenho e a pintura são sinônimos de liberdade e é sobre uma tela onde me sinto verdadeiramente livre.

CM: O que você costumava desenhar quando pequena?

LL: Eu amava as aulas de educação artística e acho que dei sorte de ter professores talvez não tão bons, mas cheios de boa vontade. Lembro-me de um professor que nos ensinou uma técnica de ligar pontos que através da Geometria e criávamos desenhos de estrelas e flores. Também tive uma professora que se dispunha a ensinar bordado Ponto Cruz após os horários de aula. Acho que eu era uma esponjinha aberta para aprender tudo o que me ensinavam. O desenho como reflexo do pensamento crítico veio depois.

CM: O que te inspira a criar hoje? Como funciona seu processo criativo?

LL: Minha inspiração vem através de sonhos e pensamentos que refletem o que estou passando em um determinado momento. O processo de criar às vezes surge de forma descompromissada, enquanto rabisco meu caderno que sempre tenho por perto, ou, como em muitos casos, quando tento representar as formas que me aparecem em sonhos. Não é raro eu acordar no meio da noite e sair correndo para buscar um papel e caneta e anotar uma imagem que vi enquanto dormia.

A fonte da criatividade flui, na maioria das vezes, ao observar fatores externos e tentar entender quais sentimentos provocaram em mim. Quando digo “externo” me refiro ao comportamento das pessoas, à situação política e econômica do nosso país, à globalização, ao desmatamento de fauna e flora e até mesmo de elementos mais simples, como os animais e plantas do sítio onde moro.

CM: Como você definiria sua arte? Há alguma obra que tenha marcado muito sua trajetória artística?

LL: É uma expressão instintiva e libertária. Acredito que nunca na História da Arte houve uma época em que as pessoas pudessem ser tão livres em se expressar, sem ser preciso seguir convenções e padrões. Nunca me senti confortável dentro de uma gaiola ou com um rótulo, então, sigo meu instinto e busco algo que ainda não foi criado, que não se pareça com nada e que não seja nada além daquilo que eu sou. Talvez seja meio pretensioso, mas é um desafio enorme, pois somos bombardeados de informações diariamente e tem muita gente criando obras maravilhosas!

Tenho uma obra que marcou muito a minha trajetória: “Ciclos” e surgiu em ciclos_2007-bx2007. Foi meu primeiro quadro “de verdade”, um dos que vejo que dei um passo a mais e consegui deixar um pedaço de mim. Demorei uns seis meses para fazê-lo, por insegurança talvez… Sou formada em Arquitetura e sinto que a faculdade deixou meu traço um pouco preso, por ter uma base muito técnica e geométrica. Foi na época eu morava no Edifício COPAN – era um sonho antigo morar em uma obra do Oscar Niemeyer. O último elemento que pintei no quadro foi a flor: era uma noite em que me sentia melancólica e solitária em São Paulo e com toda a tristeza e um pouco de descuido a tinta escorreu sem querer. No momento deu aquele pânico! “Puta merda, estraguei o quadro”! Em seguida, senti que aquela tinta escorrendo era todo o meu sentimento que transbordava. E foi ali, naquele acidente, que descobri o que era a minha arte.

CM: A partir de que momento você decidiu que era hora de investir na arte como profissão?

LL: Me formei em Arquitetura e Urbanismo em 2006. Como sempre trabalhei durante a faculdade, no penúltimo ano eu já sabia como seria a rotina profissional e que não era com aquilo que eu me sentiria realizada. Depois de quatro anos de formada, comecei a procurar outros caminhos. Foi quando surgiu a oportunidade de trabalhar na Editora Abril e lá eu descobri que poderia fazer qualquer coisa, pois a faculdade havia me dado uma base suficiente.

De lá pra cá, foram muitos projetos, mas sempre ligados à arte: produzi exposições, fui gerente de galeria, diretora de arte para vídeos, personalizei objetos, como o piano usado pela cantora Pitty em seu projeto Agridoce, e muitas outras coisas. Meu hobby começou a se tornar sério e decidi que precisava deixar de trabalhar para os outros e me dedicar à minha arte.

Atualmente, produzo quadros originais sob encomenda tanto para arquitetos como para pessoas que se interessam pelo meu trabalho. Tenho minhas ilustrações digitais vendidas nas Galerias Urban Arts e estou sempre desenvolvendo ideias para expor individualmente ou participar de mostras coletivas, como a Mostra Identidade Lúdica.

img_6037-1CM: Como é viver de arte no Brasil? E como você enxerga a presença das mulheres no cenário artístico? 

LL: Viver de arte no Brasil é como nadar contra a maré. É preciso muita dedicação, paciência e acreditar que sua arte contribuirá para um bem maior. Sempre penso no legado artístico que deixaremos para o futuro, não quero dizer fama. Vejo muitas pessoas que querem ser reconhecidas e alcançar o sucesso rapidamente e acho isso extremamente superficial se compararmos o sucesso com o poder que a arte tem de dar significado à vida das pessoas.

Já a presença das mulheres no cenário artístico, assim como em todos os âmbitos, só alcançará seu verdadeiro objetivo quando não tivermos mais que falar mais sobre isso. Quando a coexistência dos gêneros for algo natural, sem subjugar, humilhar ou agredir. Creio que isso está ligado à evolução do ser humano e até lá temos muito o que falar e principalmente fazer! 

CM: De que maneira você acredita que a arte pode transformar realidades?

LL: A arte traz significância a uma vida sem sentido e com ela você descobre que tem voz própria e o direito de falar e ser ouvido. E o encontro consigo mesmo é o primeiro passo para respeitar o próximo.

 

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