Resenha: Carta para alguém bem perto, de Fernanda Young

Antes de começar a contar a vocês sobre minhas impressões deste livro, já registro meu pedido de desculpas ao responsável pela capa da edição que li, que é do ano de 1998 (Editora Objetiva). Esse pedido de desculpas faz-se necessário por conta da pequena história que virá a seguir. Enquanto vasculhava a seção de literatura brasileira de um dos meus sebos favoritos da cidade de Campinas encontrei “Carta para alguém bem perto”. Fernanda Young, autora da obra, é uma das personalidades e escritoras que mais gosto, mas ainda não havia tido a oportunidade de ler tal romance. Equilibrando este e outros livros nos braços, fazia um esforço para ler a sinopse. “Mas que capa terrível, hein?”, pensava. A sinopse, localizada na quarta capa, não revelava muito sobre o conteúdo. “Será um romance psicológico? Um thriller? Que será?”. Acontece que meu julgamento e conflitos internos sobre levar ou não o livro deviam estar refletidos em minhas expressões, convidando a dona do sebo, sempre confortavelmente disposta atrás do balcão, a opinar despretensiosamente: “Ei, esse livro é fantástico. Um daqueles que a gente tem até dó de vender, sabe? É realmente lindo!”. E foi assim, não pela capa ou pela sinopse que li naquele dia, que “Carta para alguém bem perto” e eu ficamos amigos.

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Amigos, amigos mesmo, porque caminhei para lá e para cá com esse livro embaixo dos braços por vários dias. Após me aventurar pelas 382 páginas, eis aqui o que me pareceu: é realmente um livro lindo. Não pouco lindo, não, viu? É um daqueles livros que a gente vai lendo e se acostuma a ter a companhia das personagens ao longo dos dias. Levei quase um mês para lê-lo, na verdade, pois a cada capítulo que passava me dava conta de que essa história iria terminar – o que fazia com que eu o fechasse e adiasse a continuação da leitura por mais um dia. Deixe-me falar sobre a personagem que me acompanhou nesses dias todos: Ariana, uma mulher de 30 e poucos anos, mãe nada afetuosa, esposa complicada, mulher meio histérica, um pouco perturbada, viciada em compras (valendo bolsas ou souvenirs) e que tenta ser rebelde. Ariana, no fim das contas, é gente como a gente, sabe? Não dá pra amar ou odiar, defender ou acusar. É uma personagem que tem suas manias, suas intensidades, suas vontades – e que se mostra aos poucos, ao longo de cada capítulo.

“Carta para alguém bem perto” é dividido em duas partes, com capítulos que intercalam histórias de momentos diferentes da vida da protagonista.  Conhecemos a história de uma mulher que tinha o sonho de ser bailarina e casou cedo com seu namorado Rodolfo para que pudessem fugir à Europa e seguir seus sonhos (ele queria ser artista e ela, bailaria), mas que foram todos adiados e esquecidos pela primeira e única gravidez de Ariana. Com Daniela, a filha, nos braços, o jovem casal voltou para a cidade de São Paulo para criar a filha com o apoio dos pais. Enriqueceram através do trabalho do marido, um bem-sucedido varejista, e passam os dias com os conflitos existenciais da classe que sobrevive sem muito esforço e que transforma um corte errado de cabelo num grande problema de vida.

“Se eu fosse representada, o meu emocional, a minha personalidade afetiva, assim seria o meu personagem. Um pouco fria, um pouco apática, mesmo que raivosa. Em total silêncio ou fazendo muito barulho. Mas sempre querendo estar só nessa vida de merda. Arrancando o gelo para poder andar. Desculpa. Sua A.”

Acompanhamos Ariana em sua rotina de casa-balé-terapia-casa e também em uma viagem de carro pela Europa que faz com seu melhor amigo Bruno, que se revela soropositivo no momento em que se reencontram para viajar. Falando assim pode parecer um livro meio morno, mas não é. A viagem nos revela muito sobre essa protagonista, sobre amizade, sobre nós mesmo. No fim das contas, percebemos que esse é um romance sobre a necessidade que todos nós temos de sentir algo, de verdade; de sentir a intensidade dos dias; de conhecer-se e corajosamente assumir-se quem é. É uma ode a todas as palavras não ditas e a todas as coisas que nós deixamos de fazer.

“Mas vamos lá: eu queria ter (…) rezado mais que rezei e sido mais caridoso do que fui e sido mais honesto e mais babaca e mais sincero e mais sem medo e mais cafona e mais burro e mais cruel e mais cabeça e mais criança e pai e filho e escutado Fábio Júnior e falado menos mal de gente que acredita em gnomos e sido mais qualquer coisa e ter me cobrado menos, sei lá. Ok, também”.

Tão louca e tão humana, a personagem que Fernanda Young nos traz cria uma história com ápices, com episódios divertidos, sofridos e um desfecho inusitado. Muitas vezes nos reconhecemos nas passagens engraçadas desse livro, porque são situações que acontecem sempre na vida. É um livro recheado de sentimentos tão humanos quanto os leitores que mergulham nele. Assim como essa passagem acima, retirada da carta que Bruno escreve a Ariana tempos depois da viagem feita, se eu pudesse dizer algo a você que eu teria feito, seria ter lido esse livro antes.

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Capa da edição atual, publicada pela Rocco. (Gosto!)

2 comentários sobre “Resenha: Carta para alguém bem perto, de Fernanda Young

  1. Daniela Tiemi disse:

    Sua resenha me ganhou logo de cara com o comentário da dona do sebo. Hehehe! E, depois lendo o restante da resenha, fiquei curiosa. Nunca li uma obra da Fernanda Young, e quando for ler, acho q vou começar por este.

    E, sim, que capa feia! A edição nova da editora Rocco está, sem dúvida, bem melhor. Abs.
    Daniela Tiemi.

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    • Michelle Lopes disse:

      Oi, Daniela! Fico feliz que tenha gostado!
      A Fernanda Young é uma autora de quem gosto muito. Vou fazer outras resenhas das obras dela também!
      Quando ler, por favor, me conte o que achou!
      Abraços,
      Michelle

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