Representatividade, Cinema e Amores Urbanos: conheça Vera Egito, um dos novos olhares do cinema brasileiro

Em maio deste ano, a cineasta Vera Egito levou ao cinema uma porção de reflexões que encontrou (e abraçou, diga-se de passagem) um grande grupo de jovens da atual geração que se viu representado na comédia dramática da paulistana. Quanto tempo dura a juventude? Como lidar com todos os problemas da vida, considerando, principalmente, a sucessão de encontros e desencontros amorosos? O que fazer quando nada parece estar dando certo? “Amores Urbanos” é exatamente sobre isso.

amores

Com um roteiro que explora o cotidiano dos jovens, o primeiro longa-metragem de Vera, 29 anos, facilmente cativa: é bem possível que você se identifique com o filme, com um personagem ou com uma situação. Em “Amores Urbanos” assistimos a cenas da vida de uma geração urbana que trava diálogos sinceros em situações e lugares prováveis na cidade de São Paulo. Somos espectadores da seguinte história: Diego (Thiago Pethit), Júlia (Maria Laura Nogueira) e Micaela (Renata Gaspar) são amigos com personalidades, humores, profissões e orientações sexuais diferentes que moram no mesmo prédio e compartilham suas experiências, desilusões, angústia e alegrias. Diego há muito fora expulso de casa quando revelou aos pais sua homossexualidade, Júlia descobre que seu namorado, na verdade, escondia uma baita traição e Micaela tenta, ao máximo, compreender seu novo relacionamento com Duda (Ana Cañas), que parece não querer assumir um relacionamento sério diante dos amigos. Vera Egito nos dá aquela impressão de que, no fim das contas, todos nós temos problemas e que ninguém está sozinho. As atuações, por sinal, nos deixam uma vontade de conhecer melhor os personagens e de tê-los em nosso círculo social.

“Amores Urbanos” foi recebido em diversos cinemas do país e agora está à venda em DVD e disponível no NET Now. Esta é uma produção que promete dar início a uma trajetória louvável de Vera Egito, que já encaminha seu próximo longa, chamado “Rua Maria Antônia”, produzido com o apoio da Globo Filmes. De “Amores Urbanos”, com um roteiro contemporâneo, a cineasta retorna ao ano de 1968 e dá vida a uma história inspirada na Batalha dos Estudantes, ocorrida na rua que dá título ao filme.

Em recente entrevista ao Clarices e Marias, Vera Egito fala sobre “Amores Urbanos”, cinema, mulheres e representatividade. Confira:

Clarices e Marias: “Amores Urbanos” teve o nome provisório de “São Paulo é uma festa”. Pode falar um pouco sobre a escolha desse nome e a decisão de mudá-lo?

Vera Egito: Mudar o nome foi um desejo da distribuidora. “São Paulo é uma festa” surgiu de uma livre inspiração e referência ao livro “Paris é uma festa” do Ernest Hemingway, livro que fala dos primeiros anos do autor em Paris e da juventude. Ele estava com 20 e poucos anos e era um tempo difícil em que ele não tinha dinheiro e morava em um buraco com a mulher e um bebê, mas, apesar disso, os relatos são muito festivos. Esse livro tem um olhar bonito sobre aquela juventude, mesmo sendo um período difícil, e eu fiz essa brincadeira de chamar o filme de “São Paulo é uma festa”, porque eu sabia que os meus personagens também viviam momentos difíceis, mas que, no fundo, acabava sendo algo bom de alguma forma.

CM: Você imaginava que iria retratar uma geração com esse filme?

VE: Eu costumo dizer que “Amores Urbanos” é uma crônica sobre um grupo dentro da nossa geração: esse grupo das grandes cidades que tem um comportamento mais libertário. Existem muitas outras turmas, certamente, mas essa é a minha própria turma e eu queria fazer uma crônica sobre ela. Quando a distribuidora apareceu e assistiu ao filme – no começo filmamos de forma totalmente independente –, disse que o nome não correspondia ao filme, porque ele não era só sobre São Paulo. Como ter o nome da cidade no título dava uma pista falsa, eles propuseram “Amores Urbanos”.

CM: Como surgiu a ideia de fazer esse filme?

VE: Eu tinha escrito esse roteiro entre 2010 e 2011 e, desde então, tentava levantar dinheiro para produzi-lo, mas não conseguia. Em 2014, estava muito angustiada por não produzir meu primeiro longa e resolvi escrever um roteiro simples que eu pudesse filmar de um jeito fácil: uma história contemporânea que me permitisse chamar os meus amigos para atuar, filmar nas nossas casas e nas festas que a gente vai. Assim surgiu o “Amores Urbanos”: de uma vontade muito grande de fazer cinema de uma forma leve e rápida.

CM: Antes desse primeiro longa você já havia criado dois curtas-metragens. De alguma forma esses trabalhos anteriores colaboraram para o “Amores Urbanos”?

VE: É difícil, porque meu último curta foi lançado em 2009 e era tudo muito diferente naquela época, tanto criativamente para mim quanto para o mercado. Eu fiz meus dois curtas em película e com equipes supergrandes, de umas 70 pessoas, enquanto o longa eu fiz com uma estrutura bem menor. Tem uma experiência de narratividade que conta, mas o longa se comunica pouco com os curtas no sentido prático de cinema: o longa é um cinema mais leve, de turma, enquanto os curtas são pesados, com equipes grandes e película. Deveria ter sido ao contrário, mas foi assim. (risos)

CM: E na questão das personagens, que são sempre jovens, não teve uma colaboração?

VE: São todas protagonistas femininas, o que acabou ficando bem marcado. É um trabalho de tratar de personagens deslocados e desconfortáveis nas situações em que estão; são pessoas inadequadas que não se encaixam no padrão esperado. E tem a questão da juventude: os curtas são adolescentes e, de alguma forma, o longa também. Acho engraçado que a impressa fala que “Amores Urbanos” é um filme sobre a juventude, sendo que os personagens têm 30 anos e não são exatamente jovens (risos). Talvez seja essa juventude tardia da nossa geração que nunca deixa de ser adolescente, sabe? Nesse sentido, o longa se comunica com os curtas.

CM: Sobre esses jovens e os relacionamentos: em “Amores Urbanos” se fala muito de amor, independentemente de orientações sexuais. Como você, enquanto cineasta, enxerga o papel do cinema nessa representatividade?

VE: Tem uma variedade de orientações sexuais no filme, que é um retrato da minha vida e da vida dos meus amigos. Tenho muitos amigos homossexuais e, para mim, sempre foi muito natural. As histórias do filme são reais e como elas chegaram até mim dessa maneira, acaba sendo um retrato muito natural para mim. Quando chegou ao público, no entanto, eu percebi que isso é um assunto que nem todo mundo está acostumado e que muita gente ainda se preocupada se é homem, se é mulher, se não é…. O interessante do cinema e de qualquer obra de arte é trazer universos diferentes para todos nós, é a possibilidade que temos de visitar universos que não frequentamos na nossa vida.

No Festival Internacional de Miami, uma senhora assistiu ao filme e depois foi falar comigo e dizer que achou muito interessante e que estava envolvida com o filme, porque eu havia mostrado um outro mundo para ela. Falei que não existia um “outro” mundo, que nós vivemos todos no mesmo mundo e que a questão era abrir o coração e os braços para outras formas de pensar e de ser. Essa história de “outro” mundo não existe, né?

CM: Falando em representatividade, já que Clarices e Marias tem a proposta de falar sobre mulheres, como é ser mulher no ramo do cinema?

VE: Felizmente temos debatido isso cada vez mais. No mês passado eu participei de um encontro de mulheres estudantes do Audiovisual e vieram participantes de faculdades do Brasil inteiro aqui pra São Paulo. Eu tive uma conversa com elas e a primeira coisa que falei foi “poxa, que legal”, porque quando eu estava na faculdade, há dez anos, não existia isso. A minha turma era formada por 35 pessoas, sendo só nove meninas e não existia nenhum debate sobre a situação de gênero no cinema. Dez anos depois existem encontros feministas das estudantes de cinema!

As coisas estão melhorando e a geração de agora é muito mais consciente do que a minha e assim seguirá. As dificuldades em ser diretora são as mesmas dificuldades que toda profissional enfrenta, porque a maioria das pessoas com quem convivemos é homem e você tem de se provar, mesmo que fique insegura, pois a sociedade não te criou para mandar e se expor, te criou para ter medo. É sempre uma questão de respirar fundo, ir lá e fazer.

Eu nunca sofri uma situação de preconceito num sentido mais violento, mas todo mundo me pergunta desde a faculdade por que não sou atriz. Parece brincadeira, mas não é. “Você devia ser atriz”. Como um “você não devia dirigir ou escrever”. Ninguém fala isso para um diretor só porque ele tem uma aparência que acham que deveria ser ator. É como se a mulher tivesse de se mostrar e não se esconder atrás das câmeras.

No lançamento de “Amores Urbanos” virou até uma piada entre os meus amigos a quantidade de vezes que eu respondi a pergunta: “mas você escreveu esse roteiro sozinha?”, sendo que está nos créditos que eu escrevi. “Ah, mas sozinha?”. “Sim, sozinha, eu sou alfabetizada”. (risos) Existe um machismo embutido, né? Nunca vi ninguém fazer essa pergunta para um diretor. Mas as coisas vão acontecendo e vamos transformando isso em material para superar e debater para que as meninas já comecem as carreiras com a cabeça mais formada.

CM: Você acredita que a formação dessas novas profissionais criará um panorama diferente por trás das câmeras, com a presença da mulher sendo algo mais natural?

VE: Acho que sim! É o lance da representatividade em liderança de projeto que a gente fala no Audiovisual. As pesquisas mostram que quando você tem um autor negro, uma autora negra, uma autora, a tendência é que as personagens fiquem mais variadas. Claro que uma mulher pode falar de um homem, um negro pode falar de um branco, mas há uma tendência de se retratar o universo que te é mais próximo. Quanto mais diversidade de gênero e raça tivermos nas lideranças de projetos – roteiristas e diretores –, mais diversidade nos retratos nós vamos ter. A representatividade começa aí.

A discussão atual também está muito ligada na paridade de gênero e raça nos editais e nas pessoas que selecionam os projetos para serem premiados nos festivais, por exemplo. Será que um júri formado só por homens brancos heterossexuais vai trazer diversidade entre os filmes que passarão em um festival? Provavelmente não. Essa preocupação sobre a diversidade entre os que tomam decisões também vai fazer com que tudo fique mais variado. Acho que nos próximos dez anos vamos ver muitas mudanças por aí. Estou otimista!

2 comentários sobre “Representatividade, Cinema e Amores Urbanos: conheça Vera Egito, um dos novos olhares do cinema brasileiro

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